Tudo é átomo, até a alma? - Demócrito
- Lucas Bigogno
- 27 de mai. de 2024
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A descoberta do átomo.
Em algum momento já se questionou de onde surgiu a ideia do átomo? Como em muitos aspectos da vida, simplesmente aceitamos as ideias que chegam até nos por convenção: Já que todos pensam assim, então deve ser verdade. Quando deveria ser o contrário, se todos pensam da mesma maneira, pode ser que haja um engano muito grande. Por que todos aceitaram? Bom, o intuito aqui é expor o pensamento sobre o átomo. Que se iniciou com Leucipo, e sobre o qual não há quase nada descrito, somente os textos de Aristóteles e Teofrasto. Esse pensamento surgiu por volta do século V e IV. Demócrito foi o nome mais importante desta escola atomista.
Sobre Demócrito, também se sabe que: foi um viajante assíduo, chegando na Pérsia e na Inda. Foi um escritor de diversos temas como: ética, física, cosmologia, astronomia, matemática, música, poesia geografia, pintura e história. Para desenvolver a teoria sobre o átomo, Leucipo e Demócrito desenvolveram, sob influência de Parmênides e Zenão, suas ideias.
Buscavam encontrar verdadeiras hipóteses para explicar a realidade, para ambos a hipótese era o átomo. Todos os copos são divisíveis, mas logicamente deveriam ser formados por uma parte indivisível. Essa parte indivisível era o átomo. Sua lógica encontrou-se base na ideia, segundo a qual não se pode dividir um corpo ao infinito. Somente a matemática é divisível ao infinito.
Ele [Leucipo] admitiu os átomos como elementos infinitos e em eterno movimento e afirmou que suas formas também são em número infinito [...]. Além disso, ele não admitiu que o ser exista com maior força do que o não ser, e considerou igualmente um e o outro como causa das coisas que se geram. De fato, dado que supunha que a substância dos átomos fosse sólida e plena, chamou-a ser e disse que se movia no vazio, ao qual deu precisamente o nome de “não ser”, dizendo que ele existe não menos do que o ser (DK 67 A8).
Fica claro, que o átomo é feito de movimento entre o vazio e o elemento que “é”, descrito por ele como ser e o não ser. Essa linguagem filosófica pode parecer estranha, mas sua compreensão está ligada ao que é e o que não é. Ser é o que é (preenchimento), o não ser é o que não é (o vazio). Aqui já se chega em dois princípios, o da ideia de infinito espacial e quantitativo: os átomos são infinitos, o universo é infinito, os mundos que se movem nele são infinitos (DK67 A1);
Os argumentos lógicos propostos pelos autores são exuberantes para sua época, pois na seguinte passagem será possível notar como a identificação do átomo era totalmente isenta de temporalidade e limitação. Noções que já extrapolavam sua época:
Demócrito defende que o átomos, como ele os denomina, isto é, corpos indivisíveis pela sua solidez, se encontram no vazio infinito, onde não existe alto nem baixo, nem último nem extremo, e se movem de maneira a encontrarem-se e agregarem-se entre si, produzindo a sim todas as coisas que existem e que vemos; e é necessário pensar que este movimento dos átomos não teve princípio, mas dura eternamente (DK 68 A 56).
Assim como a eternidade dos átomos expõe sua unicidade, como átomos indivisíveis e únicos podem gerar fenômenos múltiplos na realidade? Eles reponde, magnificamente que:
Eles afirmam que as diferenças são três: a medida, o contato recíproco e a direção; a medida equivale à forma, o contato recíproco à ordem, a direção à posição: por exemplo, A difere de N pela forma, AN difere de NA pela ordem, H difere de H pela posição (DK6 A6).
De fato, uma tragédia e uma comédia compõem-se com as mesmas letras do alfabeto (DK67 A9).
Fantástico, simples e profundo. A lógica do ser de Parmênides e a base lógica matemática dos pitagóricos expressa de forma ímpar na construção do átomo como fundamento primário. Fenômenos distintos são compostos e compartilham do mesmo princípio o átomo, a coisa indivisível. A formulação da lógica através da noção das letras e dos estilos diversos, como tragédia e comedia, mostram que na nossa realidade diária, movemo-nos sobre utensílios diversos, mas com princípios iguais. Como, se alguns utilizassem a colher para cavar e outro para pegar comida. O mesmo fenômeno aplicado de forma diversa.
A razão por traz da noção atomista faz da realidade um determinismo com relação ao movimento e os compostos dos átomos (a lei do acontecimento de todos os fenômenos).
Nada se produz sem motivo, mas tudo se produz com uma razão e por necessidade (DK67 B2).
Nada se produz do acaso, mas existe uma causa determinada para todas aquelas coisas que nós dizemos que se produzem espontaneamente ou por acaso (DK68 A68).
Essa premissa leva à seguinte conclusão, os fenômenos no mundo e tudo que está correlacionado a eles, como tempestades, raios, terremotos, eclipses e outros, deixam de ser observados como intervenções divinas e passam a configurar forma atômicas da própria existência. Isso leva ao distanciamento do mito com a realidade existente. A vida passa a ser explicada, em sua completude, pela teoria atomista.
Na citação acima há a compreensão de necessidade. Todas as coisas que se produz tem o porquê da utilidade. Se projetarmos para a atualidade, a aquisição de bens ou a construção de uma casa, correspondem-se sempre a necessidade. Se na propaganda de um novo carro não lhe chamar atenção, muito provavelmente você não viu uma necessidade de compra. Porém, diante de uma doença, não se pensa duas vezes em comprar o remédio. A necessidade é quase que sinônimo da doença.
Assim, a filosofia atomista lega a sua época a noção de que os deuses não são criadores de tudo, pois as coisas existem pela necessidade, não havendo espaço ao acaso. Para que os deuses fossem partes da humanidade, teria que haver uma necessidade deles na criação. Em decorrência disso, como todas as coisas são átomos, partículas materiais, também os astros, as estrelas e a Via-Láctea, são formações rochosas e da mesma natureza que a terra. Alguns incandescentes, como o sol, outras frias como a lua. Havendo na natureza a homogeneidade da matéria pelas partículas atômicas. Com isso, a Via-Láctea é um feixe de luminosos compostos de estrela pequenas que se iluminam reciprocamente. (DK68 A91).
Salienta-se que, a filosofia do átomo, de modo semelhante aos autores da filosofia, não fixa estalagem num só aspecto da vida humana. A tradição filosófica até o autor trouxe grandes desenvolvimentos em relação ao surgimento da vida na terra. Com isso, Demócrito ao analisar o átomo e verificar as partes indivisíveis da continuidade ao pensamento precedente a ele sobre um possível evolucionismo na natureza. Essa teoria parte da noção de átomo, presente em todos os objetos, por meio da aglutinação e necessidade. Claro que cientistas contemporâneos podem olhar suas teses e verificar muitas ingenuidades, mas um pensamento que se formulou na Grécia antiga, há mais de 2500 anos, mostra como o avanço da ciência pelos filósofos estavam, de certo modo, evoluídos em complexidades.
Assim como a evolução se relaciona com o homem no mundo físico, Demócrito entendia que há uma justa relação entre raciocínio e experiência. Essa concepção leva a uma outra questão sobre as sensações. Segundo Demócrito, os homens são formados por átomos semelhantes aos que estão dispostos em outras matérias. A compreensão do átomo como partes do todo, faz chegar na compreensão de que aquilo que age e que padece são compostos de partículas semelhantes.
De fato, a faculdade de sentir, que nós temos ou até mesmo os outros seres, só e possível por partilharmos de átomos equivalentes. Assim, a sensação é este contato estabelecido pelos átomos em nossos corpos, mesmo sendo diversas (DK68 A119).
De outro modo, há também a faculdade do intelecto estando intimamente ligadas, pois para o homem sentir é ser e pensar, ter a consciência desta sensação, são uma coisa só.
Por fim, podemos dizer que em Demócrito desenvolveu-se a noção de alma presente na atualidade. Para ele a alma é responsável pelas sensações e composta de átomos. Ela era responsável para que o homem tenha uma vida boa e sã. Dizer que a alma está inteiramente ligada ao corpo, por átomos, não traduz que ela seja corpórea (física). Pelo contrário, esse embasamento da alma junto ao corpo mostra que não há uma dicotomia entre alma e corpo. Assim, corpo e alma se traduzem em duas faces da mesma moeda. Percebe-se que, na sua teoria, tudo era átomo e vazio, a concepção de alma se escapa como peculiaridade.
A filosofia do átomo mostra-nos que a concepção do passado como um local de coisas antigas e pensamentos pobres, beira quase ao ridículo. Impressionante é ver como tempos tão distantes das tecnologias do presente, já identificavam teorias que só no mundo contemporâneo seriam verificadas pela ciência. Por isso mesmo, que eles se tornarem nomes eternos e lembrados até hoje. O grande pensador não repete o seu tempo, mas pensa sempre a frente dele.
Texto citado:
DIELS, Hermann. Die Fragmente der Vorsokratiker, griechisch und deutsch. Weidmann, 1922.



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