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O que é a felicidade? E o prazer me leva à felicidade? 

  • Lucas Bigogno
  • 21 de jun. de 2024
  • 4 min de leitura

Como tratado nos textos anteriores, a filosofia de Sócrates se fundamenta sobre a égide da razão em detrimento do corpo. A corporeidade passou a ocupar um lugar distante da racionalidade, sendo o corpo um empecilho para o verdadeiro conhecimento da realidade. Como será visto no decorrer deste texto, o prazer e a felicidade passam a serem ligadas inteiramente com a razão e do seu controle sobre os impulsos corporais. 


Antes de adentrarmos mais especificamente sobre a questão da felicidade, cabe pontuar a noção de prazer socrático. Pode-se esperar de antemão que Sócrates valoriza mais a ciência e o conhecimento do que as volúpias vontades corporais. Sendo para ele fonte de engano e desequilíbrio. 


Com a distinta noção de prazer, pode-se denotá-lo como um mal ao homem, por dar-lhe impulsos irracionais? Segundo Sócrates, o prazer não é um bem em si e nem um mal em si, tudo dependerá do seu uso. Para tanto, o prazer deve ser submetido à disciplina do conhecimento e da ciência, para se tornar em algo bom. 


Em primeira análise, Sócrates pode ter sido um pensador intelectualista ao extremo por legar maior valor a racionalidade (logos), e desprezando os prazeres do corpo. Parecendo que é possível viver somente com a racionalidade e sem a parte corpórea. Essa distinção entre mente e corpo será comum na filosofia até o século XX.


Sem mais delongas, a felicidade para Sócrates segue o mesmo princípio do prazer, a filosofia denominada como Eudaimonia. A felicidade que se encontra no interior do homem e não ligada com o exterior. A filosofia é tratada como o meio para o qual pode-se ensinar os homens a serem felizes, não uma felicidade qualquer, mas a verdadeira felicidade. Mas o que é então a felicidade, a Eudaimonia?


O autor fundamenta que a felicidade não é dada e alcançada pelo corpo e pelas coisas exteriores, mas pelos bens da alma. Bens estes que são somente alcançados por meios do aperfeiçoamento da alma mediante a virtude, que é conhecimento e ciência. O que seria esse aperfeiçoamento? Que virtude é essa?


Como visto no primeiro texto desta série, a filosofia socrática é fundamentada na noção do conheça-te a ti mesmo. Para tanto, ser feliz é responder à questão sobre quem é você de modo mais autêntico possível e natural, sendo plenamente si mesmo. Resultando no pleno acordo de si consigo mesmo. Para ele, o eu funda sua própria felicidade em si mesmo, sem as alterações corporais e os componentes exteriores.


Como no fundamente do eu, sua filosofia separa de forma abrupta a mente da corporeidade. Sendo a felicidade um fator inteiramente interiorizado na alma do homem, liga ao pleno domínio de si mesmo.


Polo — Evidentemente, ó Sócrates, dirás que nem mesmo o Grande Rei sabe que é feliz! 

Sócrates — E direi simplesmente a verdade, porque eu não sei como ele está quanto à formação interior e quanto à justiça. 

Polo — Mas como? Toda a felicidade consiste nisso? 

Sócrates — No meu parecer, sim, ó Polo. De fato, eu afirmo que quem é honesto e bom, seja homem ou mulher, é feliz, e que o injusto e mau é infeliz (470 e).


No diálogo acima, fica aparente a afirmação de uma felicidade que condiga com uma vida justa e reta diante da sociedade. Percebe-se que para Sócrates, a felicidade, a justiça e todas as virtudes da alma são espelhadas no bom comportamento do corpo. A corporeidade é uma forma de externar a bondade ou maldade interna presente no homem. Fica notório uma aproximação posterior do cristianismo com a filosofia socrática e platônica.


Que a felicidade esta liga à virtude e a uma boa ciência e conhecimento de si mesmo é compreensivo, mas como chegar a essa felicidade?


Digo-vos que exatamente isso é para o homem o bem maior, refletir todo dia sobre a virtude e sobre outros argumentos sobre os quais me haveis ouvido disputar e pesquisar sobre mim mesmo e sobre os outros, e que uma vida sem tais pesquisas não é digna de ser vivida (38).


Sócrates responde ao questionamento de forma ímpar e emblemática. Possivelmente já tenha escutado a última frase citada de Sócrates: uma vida sem pesquisa (sem ser pensada), não é digna de ser vivida. A filosofia de Sócrates se fundamenta única e exclusivamente no conhecer a si mesmo. Não é possível ao homem, conhecer as coisas ou experimentá-las sem antes se autoconhecer.


O método para uma vida feliz, segundo Sócrates, é filosofar, sim fazer filosofia. Então todos os filósofos são felizes? Bem possível que não.  Sócrates dá o caminho para a felicidade que provém do interior do homem, mas muitos não querem ou não acham a única solução para a felicidade. Para além do lúdico desta argumentação sobre a alegria dos filósofos, a filosofia de Sócrates dita o caminho de total reflexam e projeção de si mesmo no mundo.


Sócrates não pensaria uma sociedade de influencers digital, pois a veneração ou o simples despojamento de tempo sobre os acontecimentos na vida de outras pessoas, configuraria uma vida não refletida. Como dispor do tempo com coisas que não lhe farão feliz, se a felicidade está na sua própria reflexão e exame pessoal. Buscando uma vida autêntica e longe das copias socias.


Portanto, socialmente, pode-se projetar uma sociedade socrática mais resiliente aos acontecimentos, pois o que realmente importa é alma, as virtudes e a felicidade pelo cultivo da reflexão. Vivendo a mais autentica forma do eu em sociedade, resistindo aos moldes e necessidades criadas.

Em relação à morte Sócrates abstém de uma análise mais profunda e deixa suspenso na seguinte passagem:


Morrer é uma destas duas coisas: ou é como um não-ser mais nada, e quem está morto não tem mais nenhum sentimento de nada; ou é, como dizem alguns, uma espécie de mudança e de migração da alma deste lugar inferior para outro lugar (40 c).


Como iniciado acima, o cristianismo utilizará posteriormente da segunda noção de alma que migra para uma outra realidade. Mas segundo Sócrates não tem como validar uma única alterativa. Mostra-se que independente da possibilidade da morte a alma feliz continua com sua contemplação sem um desequilíbrio e desespero. Assim como uma criança nasce de sua mãe a morte é para todos e contra esses fatos não há escapatória.  


Finalizando a exposição sobre Sócrates é interessante notar que sua filosofia apresenta um pleno desapego com a exterioridade e o corpo (a vaidade talvez). Sobre sua vida criaram vários ditos e mitos. Conta-se que Sócrates andava pelo comercio de sua cidade, passando de loja em loja observando os produtos que ali vendiam. Certa vez uma comerciante aproximou e lhe perguntou: - Deseja alguma coisa. Sócrates continua olhando e após um longo período retruca: Só estou a olhar as coisas que não preciso para viver.  

Simplesmente Sócrates!

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Lucas Bigogno

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