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Segunda Navegação? Sim! E a remo. 

  • Lucas Bigogno
  • 28 de jun. de 2024
  • 4 min de leitura

Platão e Aristóteles, talvez sejam os autores mais conhecidos na nossa sociedade, por serem amplamente difundidos nos ensinos escolares. Sendo autores fundamentais para qualquer começo na história da filosofia. Eles também são fontes de pesquisa sobre os autores que os precederam, por terem grandes citações do passado. Estudar Platão é passo primordial na caminhada filosófica, mediante a toda sua influência no pensamento ocidental e sobre o qual se funda grandes teorias presentes na atualidade.


Provavelmente, você leitor, tenha escutado a grande citação que todos fazem de Platão, sua alegoria da caverna. No qual ele mostra que os homens são enganados pelas aparências e por sua distração no mundo físico. Como se verá nessa introdução ao autor, seu histórico e uma retomada ao mito ajudarão a elucidar cosmovisões erradas sobre sua filosofia.


De início, cabe situar o autor no seu tempo e expor as principais influências políticas, sociais e filosóficas. Seu nascimento foi no ano de 428/427 a.C. Seu verdadeiro nome era Aristócles, mas devido sua forma e seu vigor físico, foi apelidado de platos que significa largura, amplitude. Oriundo de uma família importante para sua época, poderá ser visto grandes influências de sua posição social na sua filosofia.


Foi discípulo de Heráclito, Aristóteles e Sócrates. Sua caminhada com Sócrates é iniciada com o intuito de desenvolver-se na política de seu tempo. Desde o seu ingresso na política se assegurou de ser um militante assíduo e participativo. Sua história com a política começa a tomar caminhos desastrosos quando dois parentes próximos são retirados do poder pela democracia ateniense. Diante disso, Sócrates em 399 é condenado a morte, colocando fim à militância política de Platão.


Após sua frustração com a política, foi viajar para a região onde hoje é a Itália, buscando difundir seu pensamento filosófico e político aos reis da época. Seu anseio era por criar nos reis um estilo de rei-filosofo. Seu intento nunca foi posto à prova, visto que os reis que ele buscava influenciar lhe tomavam como escravo. Após idas e vindas ele foi resgatado por seus parentes e passou a desenvolver sua filosofia em Atenas, criando uma academia.


Posterior a criação da academia, começou a exercer o papel de filosofo. Um passo importante na sua filosofia foi a volta ao mito e a fisis dos pré-socráticos. Platão denominou sua retomada a fisis como a segunda navegação. Por se tratar de uma retomada autêntica na direção da descoberta do suprassensível, o ser suprafísico. Essa volta, a segunda navegação, foi associada como uma volta a remo. A metáfora do remo servia como uma maneira de retomar certos preceitos dos pré-socráticos, mas com maior assertividade. Direcionando o caminho com cautela e não sendo levados pelo vento.


Platão com toda sua filosofia e influência subordina o mito ao logos. Sim, ele retorna ao mito como parte fundamental para um desenvolvimento lógico pós logos. Como assim? Platão quer mostrar que a filosofia ou o logos, após esgotado, abre espaço para a fé no mito. A filosofia chega a noções fundamentais, mas embarra-se com o inexplicável e assim reaparece o mito pela fé.


Como Platão identifica essa multiplicidade do mundo no seu modo de ser? Os antigos ao explicarem o belo ou a prisão de alguém, reduzem o fato puramente na dimensão naturalista e mecânica. Mas segundo ele, a nova navegação traz o que o logos deixou de lado, o mistério por traz do inexplicável. A prisão de Sócrates não está apenas atrelada ao se movimentar em direção a cela que o cercearia, mas a questões ético/morais. A verdadeira justificativa se encontra no que a física não pode responder, nas partes metafísica da questão.


Surge a noção de metafisica, meta no grego traduz-se como além, ou seja, além da física. O mito é incorporado como uma explicação que extrapola a noção física da humanidade. Toda a posterioridade será determinada por essa noção platônica de metafisica. O exemplo da ética é ímpar, pois fisicamente não há correspondência ao ser ético. A razão por si não consegue explicar, somente levando o homem a se pensar enquanto humanidade e sobre as bases do bem comum. Relações estas que podem ser denominadas de metafisicas.


A própria religião denominada, de modo pejorativo, como platonismo do povo, só é assim atribuída por seguir expressivamente o modelo platônico para uma solução da precariedade humana. Visto que, somos todos caídos e pecadores, á de haver alguém que nos salva das mazelas.


É uma plena mutação, segundo Platão o invisível permanece o mesmo e o visível está sempre mudando. Como disposto, o preceito ético é único e é a humanidade que se desconfigura. Sobre a alegoria da caverna, quem estava fixado apenas nas coisas sensíveis? os filósofos da primeira navegação. É interessante notar que a filosofia primeira dos pré-socráticos representa a cegueira para Platão, sobre uma realidade que é mais profunda e essencial, o que não é visto. Assim, a realidade era de certo modo um pleno movimento sem se fixar nas questões éticas e morais. Partes de suma importância na vida em sociedade.


Por fim, é possível citar um diálogo de Platão onde ele expõe toda a teoria do mutável e do imutável:


“E és capaz de vê-las, tocá-las bem como percebê-las por meio dos demais sentidos, ao passo que no que se refere às coisas que são sempre as mesmas só podem ser apreendidas pela razão e são invisíveis, não podendo ser vistas.” “O que dizes”, ele disse, “é inteiramente verdadeiro.” “Ora”, ele disse, “suporemos dois tipos de existência, quais sejam, uma visível e outra invisível?” “Vamos supô-las”, concordou Cebes. “E suporemos também que o invisível é sempre o mesmo, ao passo que o visível está sempre mudando?” “Suporemos também isso”, ele disse (Fédon 78e-79a).


Somente após a segunda navegação platônica pode-se falar de material e imaterial, sensível e suprassensível, físico e metafísico. Como já explicito, a contribuição de Platão ao retomar o mito por intermédio de uma fé possível ao logos, legou ao ocidente uma cosmovisão que perdurou até o século XIX, onde encontrou seu auge na filosofia alemã e em Hegel. Deve se ponderar que a fé disposta por Platão não se tratava de algo tipicamente religioso, mas uma forma de compreender a realidade ao extrapolar os conceitos lógicos. A religião posteriormente utilizará o mesmo modelo platônico, infundido a fé que planeja uma vida em outra realidade.



Lucas Bigogno


Texto citado:

SANTOS, Bento Silva. A imortalidade de alma no Fédon de Platão: coerência e legitimidade do argumento final (102a-107b). edipucrs, 1999.

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