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Todo Filósofo é Ateu?

  • Lucas Bigogno
  • 11 de abr. de 2024
  • 5 min de leitura

Atualizado: 5 de mai. de 2024


Iniciar o curso de filosofia ou ter o hábito do questionamento é se converter ao ateísmo? De início deixo claro que não, filosofia não é sinônimo de ateísmo. Mas, por que muitos compreendem a filosofia como opositora à religião? A filosofia mata a religião? As religiões são rasas para que os questionamentos as destruam? Afinal, qual o objetivo central da religião na nossa sociedade. Percebe-se que uma simples afirmação desencadeia em muitos questionamentos. Convido você para me acompanhar nessa reflexão. Caso no final, sinta-se à vontade para deixar seu ponto de vista, eu lhe convido para dialogarmos filosoficamente nos comentários ou nos agendamentos no site.


Antes de buscarmos respostas desenfreadas para essas dúvidas que surgem, precisa-se entender qual a relação da filosofia com a religião na sua origem. A filosofia surge na Grécia antiga como um questionar sobre o princípio de tudo. Os filósofos de Mileto buscavam na natureza as causas primeiras de todas as coisas. Denominavam a água, o ar, o fogo e outras coisas como princípio de toda a humanidade. 


Hoje podemos achar absurdo tal proposição, mas na época fazia total sentido, pois verificaram que, por exemplo, em tudo havia água e sem ela todas as plantas morriam e os seres humanos morreriam desidratados. Percebe-se que há um sentido lógico por trás de tudo. Não saiam falando como se fossem apenas opiniões infundadas. Para expressarem tais afirmativas, buscavam na natureza experiências ou, como se denomina na filosofia, através da empiria, da observação. Esse método é similar ao utilizado pelos técnicos de futebol num determinado jogo. Pois, escalam um determinado time, mas ao verem que suas ideias não correspondem aos fatos do jogo, logo pensam em alterações. Ou seja, de modo empírico verificam que a ideia principal não foi efetivada.


Deste modo, compreendemos que a forma dos filósofos adquirirem conhecimento no início da filosofia era por experiências no cotidiano e pela pura reflexão racional. 

Mas, por que isso era algo novo?

Giovanni Reale explica que: "Esta historicamente demonstrado que os povos orientais, com os quais os gregos tiveram contato, possuíam de fato uma forma de "sabedoria" feita de convicções religiosas, mitos teológicos e 'cosmogônicos', mas não uma ciência filosófica baseada na razão pura (no logos, como dizem os gregos). Ou seja, possuíam um tipo de sabedoria análoga à que os próprios gregos possuíam antes de criar a filosofia".


Reale expõe que houve uma distinção entre a cultura oriental, na questão da religião e das formas científicas desenvolvidas, e ocidental (especificamente dos gregos). A parte oriental e ocidental tiveram funções semelhantes para o pensamento de sua época em sua origem, mas seus desenvolvimentos foram distintos. Essa distinção resultou no modo como cada pensamento se desenvolveu, os orientais muito mais fixados nas religiões e mitos da época, já a parte ocidental (os gregos) prezando o lado puramente racional. Quando os gregos caminharam para o pensamento racional puro, deixaram de lado o misticismo dos antepassados.

O autor também discorre que não há registros nos textos gregos de influências das religiões na vida dos povos ocidentais. A única coisa que foi deixada pelos orientais foram a matemática-geometria e a astronomia. 


Nota-se que antes do surgimento da filosofia a religião ou os mitos tinham grandes papeis sociais para a constituição do imaginário popular. Mesmo a Grécia não tendo muita influência do mundo oriental, é possível perceber que no próprio mundo grego havia uma gama de mitos e religiões populares. 

Como os mitos de Homero ou nos seus escritos, Ilíada e Odisseia. Outro autor pouco conhecido é Hesíodo, no qual seus poemas trouxeram grandes influências nos mitos da época. 


"Para Homero e para Hesíodo, que constituem o ponto de referência das crenças próprias da religião pública, pode-se dizer que tudo é divino, pois tudo o que acontece é explicado em formas de intervenções dos deuses. Os fenômenos naturais são promovidos por deuses: raios e relâmpagos são arremessados por Zeus do alto do Olimpo, as ondas do mar são provocadas pelo tridente de Poseidon, o sol é levado pelo aureo carro de Apolo, e assim por diante [...] Esses deuses são, pois, homens amplificados e idealizados, e, portanto, diferentes do homem comum apenas por quantidade e não por qualidade".


Outro ponto importante foi o desenvolvimento da religião popular, o orfismo: que "proclama a imortalidade da alma e concebe o homem conforme o esquema dualista que contrapõe o corpo e a alma". A influência deste pensamento é notada em platão.

Os gregos foram propícios para o desenvolvimento racional devido a suas características culturais, sociais e políticas. Segundo reale, os gregos tiveram todo esse contexto cultural dos mitos e da religião pública, mas só foi possível o desenvolvimento racional devido ao contexto político, pois as polis (cidades) eram pequenas e serviam como cidades-estados. Na época havia uma grande troca de culturas por existir formas de livre comércio nos portos. Isso trouxe liberdade e contatos com diversos povos, influenciando o modo de pensar grego. Assim o pensamento racional filosófico surge diante de total liberdade para se desenvolver, sem ser subjugado por influências políticas e religiosas.


Mas afinal, o que isso tem haver com o ateísmo?

Como disposto acima, antes da filosofia surgir como pensamento puramente racional, havia grandes correntes mitológicas e de religiões populares no seu contexto. No qual as explicações para a existência de trovões ou sobre a alma provinham de mitos ou da religião. 

Quando Tales de Mileto busca na água o princípio de todas as coisas, já se mostra uma inversão. A natureza torna-se alvo para a explicação da existência das coisas. Não se buscou nos deuses da época. O único método usado por Tales foi a razão (logos, entendido como razão reflexiva, que pensa a si mesmo). 

Mas é errado explicar por princípios religiosos? não, mas o pensamento filosófico se coloca como um estudo que busca refletir sobre os vários temas da sociedade de modo puramente racional. O principal ponto da filosofia é poder verificar ou experienciar tal explicação racional. Não trata-se só de falar ou dar uma opinião qualquer, mas de mostrar na realidade a sua aplicação.


A filosofia segue um método diferente da religião, por buscar essa verificação do pensamento no mundo real. Não trata-se de uma crítica à religião, mas o seu fundamento não está na realidade. A pura religião trata de algo transcendente, de algo que não é verificado, de modo empírico (sem necessidade de crença) na realidade humana. Talvez essa seja a característica que faça da religião ser de fato religião.


Deixo aqui um questionamento, o que a religião busca responder, no qual, nenhuma outra ciência consegue explicar de modo verificavel? Reflita e deixe sua reflexão nos comentários. 


Concluindo, todo filósofo é ateu? Não, pois a única distinção que há entre os dois tipos de conhecimento é o método. Como vimos, a filosofia trata-se de colocar todo o mundo sob a perspectiva da razão humana e com a intencionalidade de verificar suas conclusões. De outro modo, a religião busca através da crença ou a fé, fundamentar toda a realidade ou explicar tudo o que existe à nossa volta. Não se trata de ser melhor ou pior, de certo ou errado, de bom ou mau; mas de dois olhares distintos sobre a mesma realidade.

Se adiantarmos o olhar histórico depois dos gregos, pode-se perceber que ocorreu na idade média uma tentativa de alinhamento desses dois métodos de conhecimento pelos filósofos da igreja. Eles tentaram alinhar o pensamento filosófico com o religioso, fato que podemos ver nos textos seguintes.


Agradeço pelo tempo dedicado à leitura.

Espero que tenha ajudado a esclarecer de modo resumido a vasta gama das problemáticas que envolvem este tema. 



Lucas Bigogno.


Texto Citado:

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia: Antigüidade e Idade Média: volume I. Paulus, 2003.

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Lucas Bigogno

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