Todas as coisas são números!
- Lucas Bigogno
- 26 de abr. de 2024
- 5 min de leitura
Atualizado: 5 de mai. de 2024

E a Filosofia? Segundo Pitagóricos, sim.
Para além do teorema, Pitágoras desenvolveu uma filosofia própria e autêntica. Mas de onde surgiu o teorema? Assim como será possível verificar que a sua filosofia, o teorema é oriundo de fortes influências dos árabes e indianos no pensamento Grego. Não se sabe ao certo se ele foi o primeiro a descrevê-lo, mas foi o principal a desenvolvê-lo.
Antes de expor os pensamentos filosóficos dos pitagóricos é preciso ser feito uma breve contextualização histórica e mostrar como a antiguidade trouxe expressivas contribuições para o pensamento humano. Os primeiros relatos dos pitagóricos são datados de 570 a.C. A escola pitagórica, assim como todas as teorias e pensamentos que surgiram nesta época, é carregada de preceitos religiosos e com muitos mitos acerca do seu nascimento. Ela foi fundada por Pitágoras de Samos, no qual Heráclito o descreve como alguém que: “exerceu a investigação científica mais do que qualquer outro homem e com o que retirou destes escritos formou a sua própria sabedoria: multiciência, arte de charlatães” (DK22 B129).
A filosofia da escola pitagórica se voltava para o número como parte primordial da realidade. Mas de onde eles tiraram a possibilidade de o número ser algo tão fundamental? Será que eles simplesmente acordaram um dia e ao contarem as pedras amontoadas tiveram um insite? Já adianto que não foi bem assim. Um dos fatores que contribuiu para o florescimento da filosofia foi a sua influência, devido ao compartilhamento de culturas das polis (cidades-estados) com outros povos, maciçamente dos povos orientais, em especifico os Árabes. Este fato fez com que os gregos tivessem contatos com a geometria-matemática deles.
É provável que no decorrer do pensamento grego as influências da matemática fossem sendo inseridas ou assimiladas como um novo modo de se pensar a realidade, puramente racional e sem auxílios das religiões.
Segundo Hermann Diels: “Informações sobre a escola pitagórica dizem-nos que para ser admitido na comunidade era preciso submeter-se a um longo estágio e a provas difíceis; que nela eram admitidas também as mulheres, fato extraordinário para a Antiguidade; que nela vigorava a comunhão de bens; que era necessário respeitar regras precisas de comportamento no interior da escola e na vida social. Era dada máxima importância à amizade, valor que ligava intimamente todos os que pertenciam à escola (DK58 D9), e à conduta de vida que se afastasse de todos os excessos que caracterizam a vida dos ricos aristocratas ou dos novos-ricos que começavam a afirmar-se sob os governos tirânicos (cf. DK58 D8)”.
Esses relatos sobre a escola pitagórica são ricos em detalhes e informações sobre a sua utilidade. Um ponto a ser destacado é a admissão de mulheres que passaram ter voz numa sociedade que não considerava muito suas opiniões. Se nos deslocarmos ao tempo histórico vivido por elas, este feito é bem expressivo, pois na Grécia antiga só era considerado cidadãos os homens livres e a aristocracia.
Aristóteles cita os pitagóricos como os primeiros a se dedicarem a matemática e que fizeram ela progredir:
“Os pitagóricos foram os primeiros que se dedicaram as matemáticas e as fizeram progredir. Nutridos pelas mesmas, acreditaram que os princípios delas fossem os princípios de todas as coisas que existem. E, uma vez que nas matemáticas os números são, por sua natureza, os princípios primeiros, precisamente nos números eles acreditavam ver, mais que no fogo, na terra e na água, muitas semelhanças com as coisas que existem e se geram (...); e, além disso, como viam que as notas e os acordes musicais consistiam em números; e, por fim, como todas as outras coisas, em toda a realidade, pareciam-lhes serem feitas a imagem dos números e que os números fossem aquilo que é primeiro em toda a realidade, pensaram que os elementos do número fossem elementos de todas as coisas, e que todo o universo fosse harmonia e número."
Bom, nessa citação de Aristóteles presente no livro de Giovane Reale sobre a história da filosofia, percebe-se que há uma variedade de informações que necessitam ser explicadas para compreendermos sua importância para a filosofia.
Aristóteles expõe que o número era visto como o mesmo fundamento que os primeiros filósofos supunham. Em Talles de Mileto a água era o princípio formador de tudo e de modo semelhante, os pitagóricos, compreendiam que o princípio que dava ordem e gerava tudo eram os números. Para tanto, colocavam no número a causalidade que fazia o universo ser harmônico, ou melhor, o número expunha a grande harmonia que há no universo.
Acredito que estas referências do número sobre o todo geram um pouco de desconforto. Mas podemos pegar um ponto interessante que os pitagóricos utilizavam para se compreender melhor. Segundo eles, na formação dos números era de vital importância o espaço: Ao imaginar uma sequência numérica qualquer, sem espaços entre os números, será quase impossível descrever a sua grandeza. De imediato ao olhar a seguinte sequência numérica: 125438986543290987, não é possível diferenciar se trata-se do número 1, 12, 125, 1.254 e assim por diante. Percebe-se que os números para serem compreendidos necessitam de uma certa ordem. A sequência 1 2 3 4 5 10 39 é formada, composta por unidades, pelos espaços.
“O vazio encontra-se, antes de mais nada, nos números, porque é o vazio que distingue sua natureza” (DK58 B30).
Assim, eles compreendem que os números são ordens, eles precisam de ordenamentos para serem compreendidos na realidade. Se tudo é número, número e ordem (komos = ordem em grego), os pitagóricos compreendem o cosmo como ordem. Cosmo aqui é identificado como a cosmologia, que estuda os astros. Por isso, na citação de Aristóteles é presente a noção de harmonia, pois há uma certa ordem entre os planetas, assim como há ordens entre os acordes musicais para gerarem uma melodia agradável.
Soma-se a isso, a noção de harmonia pelos contrários, ou seja, tese e antítese geram uma síntese, a harmonia. A tese é o texto, a antítese é a sua crítica ou opinião sobre o texto e a síntese é uma nova elaboração do texto com enriquecimento da antítese. Mas a harmonia não para por ai, eles dispunham que os astros, ou planetas, geravam sons e só não é audível, pois já se está acostumado e por existir o contraste com o silencio: “[...] Mas, dado que pareceria estranho que nós não ouvíssemos este som, dizem que a causa disto é que ele existe já desde o momento em que nascemos, razão pela qual não se torna perceptível pelo contraste com o silêncio; de fato as percepções do som e do silêncio são correlativas” (DK58 B35).
Em que isso impacta na filosofia? De imediato, deve-se dar devidos méritos aos pitagóricos, pois por mais difícil e abstrata seja essa teoria, ela é possível ser compreendida de modo plenamente racional. Este é o ponto principal da filosofia, o logos ou a razão, que possibilita pensar a realidade de maneira lógica e racional. A filosofia eleva ou traz à tona a imensa capacidade humana de formular questões complexas. Questões que são tiradas das conexões celebrais em contraste com a natureza presente, sendo disseminadas sem a necessidade da crença. Deslocando-nos a realidade dos pitagóricos, veremos que não havia nenhum tipo de auxílio para resolver certas questões. A mente humana era o único objeto que servia como auxilio na produção de conhecimento.
Após este parêntese, onde está a filosofia? Lembre-se, a filosofia já é encontrada na própria noção de cosmo. Os pitagóricos legaram a filosofia a possibilidade de compreender o mundo para além das noções mitológicas. Devido o surgimento da ideia do número, os dogmas antigos das religiões sobre o mundo, se transformaram gradualmente em disciplinas com via cientifica: "o mundo deixou de ser dominado por obscuras e indecifráveis forças, tornando-se número, que expressa ordem, racionalidade e verdade".
Verdade verificável no próprio número, com descrito por Filolau: "Todas as coisas que se conhecem têm número: sem este, não seria possível pensar nem conhecer nada. (.. .) Jamais a mentira sopra contra o número."
Deste modo, os pitagóricos contribuíram para que os homens olhassem o mundo a partir da ordem perfeitamente penetrável pela razão. Como um velho ditado já diz, contra fatos não há argumentos. Os números surgiram nessa época como mediador para que as cosmovisões sobre o mundo se tornassem em questões verificaveis.
Fica-nos uma lição muito importante, não há questões difíceis na nossa realidade, o que pode ocorrer é a nossa preguiça mental de refletir sobre determinados fatos. A capacidade humana de criar coisas podem ser vistas no caminhar sobre a calçada. O que antes era barro, hoje já não suja o seu calçado, ou melhor, não suja os seus pés, pois não havia calçados. Somos resultados de grandes pensadores e inovadores, o próprio aparelho em que você está lendo este texto é um exemplo disso. Uma maneira muito importante de compreender a filosofia é pela forma com que ela iguala sua capacidade racional a todos os indivíduos. Não há o mais inteligente, existem pessoas que refletem sobre determinados problemas e com exercício e repetição de certas questões, começam a encontrar facilidades e soluções.
A filosofia olha para você e te coloca como capaz de realizar qualquer reflexão, pois o filosofar é levantar questões sobre a qual os homens não as veem de primeira. Sinta-se convidado a pegar um livro qualquer e no momento da leitura questione-o, faça perguntas sobre o livro, perceba-se como alguém que reflete com o livro. No final da leitura, tire uma conclusão: concordo, discordo ou suspenda o julgamento de imediato. O principal é ser um pensante sobre os fatos daquele livro.
Obrigado pela atenção.
Lucas Bigogno.
Textos Citados:
DIELS, Hermann. Die Fragmente der Vorsokratiker, griechisch und deutsch. Weidmann, 1922
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia: Antiguidade e Idade Média: volume I. Paulus, 2003.



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