top of page

Teoria da Evolução na Grécia Antiga?

  • Lucas Bigogno
  • 13 de mai. de 2024
  • 7 min de leitura


Darwin ou Empédocles?


Antes de tudo, é bom deixar claro que o presente texto não pretende polemizar sobre qual o autor foi o principal a desenvolver a teoria da evolução. Como já se sabe, o conhecimento esta sempre em avanço com o desenrolara da humanidade. Por isso, por mais que Empédocles tenha formulado inicialmente essa teoria, ela pode ter características muito rudimentares e com proposições um pouco absurdas, por ser uma passo bem primário. Com isso, O darwinismo, por seu momento histórico e o desenrolar da


Assim como no percurso dos autores já estudados, os escritos que chegaram até atualidade, conta-se que Empédocles participou e foi ouvinte da escola Pitagórica, de Parmênides, de Xenofonte e Zenão. Ele se coloca como autor que segue caminhos parecidos ao de Parmênides, pois continua a formulação do ser e da morte como princípio. Seus poemas são destinados tanto aos chamados filósofos, quanto a toda a população de sua época. Nota-se, que ele se preocupou em tonar a filosofia acessível aos demais indivíduos da cidade-estado.


Nasceu numa família da aristocracia grega (os nobres), mas desde novo já começou a fazer parte da ala dos democratas e sempre olhando para a parte do povo mais vulnerável. Este fator corrobora para que sua filosofia fosse intencionalmente disseminada entre as classes populares. Há dois escritos que chegaram à atualidade, o primeiro mais científico e poético o outro mais místico (caracterizado por sua narrativa profética). Compreende-se que a utilização da linguagem mística era devida ao interesse de comunicar-se com a população em geral.


Essa característica é um ponto fundamental para destacar-se em sua filosofia, pois o grande desafio de quem estuda filosofia é fazê-la compreensível ao conhecimento de todos, de forma clara e profunda. Pode-se ter aqui o primeiro filósofo a preocupar-se em fazer da filosofia um conhecimento que se aproxime de todos. Não fazendo distinção de classe ou de poderes políticos.

Há uma citação destinada a ele, no qual se revolta contra os luxos dos aristocratas: “Os agrigentinos vivem voluptuosamente como se fossem morrer amanhã, e constroem casas como se fossem viver para sempre” (DK31 A1).

 

No âmbito filosófico, Ele é caracterizado pela formulação das 4 raízes (fogo, ar, terra e água) e o ser como indivisível. Como característico, seguindo a linha mística, denominando as raízes com codinomes de deuses: de Zeus, fogo; de Hera, ar; de Edoneu, a terra; e de Nestis, a água. Esses seriam os quatros elementos primordiais da existência, sendo eles partes primordiais em cada fragmento da realidade.

Empédocles formula que não existe nascimento e nem morte dos seres, o que há é separação. Assim, não morremos, mas nossas particular em discórdia separam-se e deixam de ser unidade e equilibro:


Mas outra coisa te direi: não há nascimento de nenhuma das coisas/mortais, nem fim por morte funesta, /há somente mistura e separação de coisas misturadas;/ainda assim, o nome nascimento, para estas coisas, é usado pelos homens (DK31 B8).


O exemplo para as quatro raízes é a imagem da amizade (como aglutinação e unidade) e discórdia (como separação e fragmentação). Pode-se perceber na construção de uma casa, mais especificamente nos tijolos. Ao construir determinada massa, utiliza-se elementos e materiais diferentes para aglutiná-las. Deste modo, a amizade é esse fator aglutinador, já a discórdia é o princípio onde tudo se encontrava separado. Podendo ser percebido novamente na destruição do bloco. Para ele a morte é a discórdia, onde os elementos dos corpos se separam. A quebra do tijolo, segundo ele, possibilita o surgimento de outras coisas. Igualmente a morte dos homens geram novas possibilidade de existência para o planeta.


Andes de adentrar-se sobre o fundamento da existência humana e sua evolução, vale ressaltar a noção de equilíbrio entre as forças para Empédocles. Pois, o resultado para a existência das coisas não são só discórdia e nem somente amizade, caso assim fosse não haveria humanidade. Ele discorre que a humanidade e tudo que existe encontra-se no ponto intermediário da amizade e da discórdia. Caso a amizade prevalecesse, tudo seria uno e não haveria multiplicidade das formas e da existência; de outro modo, se a discórdia predominasse ter-se-ia infinitas partículas pairando sobre o nada e sem forma. Com isso, somente com um estado intermediário, onde permaneça o equilíbrio, a existência seria possível. Assim, o mundo é este estado de equilíbrio entre as raízes e o ser humano, seguindo o princípio do equilíbrio. Os fenômenos vistos são a inteira composição dos contrários de forma estável.


Há somente dois locais intermediários, entre a discórdia e a amizade. A vida é um desses estados intermediários, onde há uma dialética entre a amizade e a discórdia, vida e morte. O outro é a natureza do mundo, que permanece em pleno equilíbrio. A dialética é presente aqui, pois no mundo vivente as duas coisas são encontradas em simultaneidade e se comunicando. Obs.: Dialética é quando duas opiniões contrarias ou coisas se confluem em uma nova possibilidade ou perspectiva.


Sobre a morte, também há algumas passagens emblemáticas:

Jovens: não decerto rápidos são os seus pensamentos, /eles que esperam que nasça aquilo que antes não existia/ou que algo morra e se destrua de todo (DK31 B11).


Aos afoitos pelo tempo de muitos afazeres, Empédocles dispõe que não se pode criar o que antes já não esteja criado e destruir algo que já está destruído. Há novamente um convite, implícito, ao equilíbrio. Como se o caminhar fosse sempre se equilibrar num pé de cada vez. Tem-se os dois para andar, mas para sair da inercia, somente com um passo após o outro.


Outro ponto interessante é a sua compreensão das raízes como coisas que é e não pode ser destruída. De igual modo, fora das raízes nada existe.


De fato, do que não é, é impossível que nasça/e é coisa irrealizável e inaudita que aquilo que é se destrua (DK31 B12).


Com a sua lógica da existência eterna do que é e a impossibilidade da existência do que não é, deixa caracterizado, logicamente, a influência dos Pitagóricos e de Parmênides em sua filosofia. Rendendo inúmeros comentários de filósofos posteriores. Como Plutarco que definiu muito bem a filosofia de Empédocles: “Com efeito, estes são os versos de alguém que grita em voz alta para quem tem ouvidos, que nega não o nascimento, mas o nascimento do não ser, nem nega a morte, mas a que destrói até o não ser”.


Possivelmente já te questionaram, de onde você veio ou qual a origem de tudo. Com certeza, esse questionamento não é sobre a sua mãe. Mas se há ou é você acredita numa realidade superior a tudo. Neste horizonte há inúmeras possibilidades e grandes são as formulações humanas para tentar encontrar uma resposta confiável. Não foi diferente com Empédocles, como todo filosófico de sua época, buscou responder de maneira única e lógica este questionamento. A única opção era recorrer à noção evolutiva da terra, com seus limites temporais. A possibilidade evitada era, como nos mitos, legar aos deuses da história a autoria do mundo. Pode-se perceber que para a filosofia o mito passa a representar uma forma religiosa de compreender o mundo, com soluções especificas. Como será visto, sua formulação é ímpar e digna de reconhecimento, pois um autor do ano 400 antes de cristo já compreendia na realidade uma teoria da evolução, no qual os seres humanos provinham da evolução entre os contrários por meio das raízes.


Empédocles afirmou que antes dos seres vivos as árvores nasceram da terra, antes que o sol raiasse por todo lado e antes que o dia e a noite se distinguissem: por causa da simetria da mistura, de fato, eles abraçam quer a característica do macho quer a da fêmea. Eles crescem, depois, impelidos pelo calor que há na terra, de modo que são partes da terra como os embriões no ventre são partes da matriz (DK31 A70).


Filosoficamente há dois aspectos muito interessantes na teoria da evolução de Empédocles. O primeiro aspecto, é o fator mítico que seus textos incorporam para uma transmissão mais próxima do povo. Este ponto, assim como em outros autores e na atualidade, é primordial para que a filosofia saia do seu mundo acadêmico e volte-se para o lugar de onde ela é oriunda. Os professores de filosofia ultimamente buscam maneiras e formas de colocar as teorias e os conceitos de modo claro e distinto para a população. O segundo ponto é a sua estruturação lógica, talvez a mais importante aqui, pois como Parmênides e os pitagóricos, Empédocles dispõe de uma sapiência e sagacidade lógica memorável, para formular suas teses e embasá-las nos princípios empíricos da racionalidade.


A influência de outros autores é claramente notável, pois assim como em Parmênides o que é se torna primordial para projetar a evolução humana e as coisas que são, as experiências, é o fator que possibilita a assimilação por semelhança. A evolução humana oriunda das quatro raízes no pleno equilíbrio entre amizade e discórdia. Deste modo, as plantas, as arvores e todo o resto foram sendo formadas por assimilação e equilíbrio. Chegando no ápice com o humano. O autor dispõe que há uma força inata que impulsiona as raízes se equilibrarem nos dois polos.


Muitos seres nasceram com duas caras e com dois peitos, /estirpes bovinas com rostos humanos, e outras, ao contrário, surgem vice-versa/estirpes humanas com rostos bovinos, misturadas, por um lado, com formas masculinas/e, por outro, com formas femininas munidas de ensombrados órgãos sexuais (DK31 A61).


Essa passagem do autor mostra como suas concepções lógicas se colocam de forma rudimentar e um tanto quanto absurdas. Mas vale lembrar que a alternativa buscada para explicar a realidade humana era unicamente a razão e a experiência com as coisas do mundo. Racionalmente a lógica surge em Parmênides de modo mais expoente e transpassa toda a tradição filosófica até hoje. Por mais inocente que pareça, deve-se lembrar que a religião do povo e os mitos, não serviam mais para explicar a realidade do mundo puramente filosófico.


Como visto antes, não querem pensar uma sociedade ateia (aliás, utilizar termos modernos para caracterizar épocas distintas da história nos coloca diante do anacronismo), muito pelo contrário. A forma com que os autores filosóficos colocam a racionalidade e as formulações: de onde viemos, para onde vamos e quem somos; eram maneiras de tentarem abarcar toda a realidade. Fazendo dela um misto cultural que orientava o modo de viver. Cada escola dispunha de uma teoria que pretendia dar para a realidade uma resposta plausível.


Portanto, Empédocles absorve as teorias que o precedeu e faz delas concepções altamente ousadas para a sua época. Pensar o mundo como evolução plena, numa logica ímpar, deixa grande legados até a contemporaneidade. Assim como a disposição da luz viajando no espaço.


Lucas Bigogno.


Textos Citados: DIELS, Hermann. Die Fragmente der Vorsokratiker, griechisch und deutsch. Weidmann, 1922. 

Comentários


Lucas Bigogno

©2024 por Lucasbigogno. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page