Conheça a ti mesmo - Sócrates
- Lucas Bigogno
- 3 de jun. de 2024
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Como vimos até aqui, a filosofia buscou desde o seu início respostas para todas as áreas da vida humana, em especial do princípio fundante. O princípio que deu origem a tudo e sobre o qual permanece sem origem. No artigo anterior, vimos a posição de Demócrito sobre o átomo, sua teoria da partícula indivisível corrobora para a ideia de um princípio que não foi fundando por nada, mas que dá início a tudo. Agora partiremos para uma ala da filosofia, no qual os autores foram canonizados como referências do pensamento grego. São eles, Sócrates, Platão e Aristóteles.
No presente texto iniciaremos em Sócrates a nossa caminhada sobre os autores tidos como os mais importantes do mundo grego. Perceberá que toda a filosofia posterior parte das visões deixadas por esses autores. Os autores estudados anteriormente, os denominados pré-socráticos, chega-nos na atualidade sobre a égide dos escritos de Platão e Aristóteles. Como veremos em Sócrates, até mesmo seus pensamentos só passaram a ser conhecidos devido os escritos de Platão, Xenofonte e Aristóteles.
A importância de Platão sobro os ensinamentos de Sócrates deixa em dúvida sua existência, pois era comum na antiguidade os autores usarem codinomes ou até mesmo davam nomes aos seus escritos, sem mencionar o próprio nome. Com isso, muitos acreditavam que Sócrates nunca existiu, sendo só uma figura criada por Platão. Há, porém, controvérsias sobre os diálogos platônicos acerca de Sócrates, pois muitos acreditam que Platão sobrepôs suas teorias alinhando-as em Sócrates. Outro fator foi a elevação de Sócrates como o mestre, o super pensador, o forte, o moderado e o único e verdadeiro político que jamais existiu em Atenas.
Como separar a fonte do autor dos seus exageros? A questão é, não se separa, pois, ao escrever sobre Sócrates, Platão interpreta, repensa, revive, explicita, aprofunda, constrói de novo, transpõe: em suma, em Sócrates ele projeta a si mesmo.
Outro autor é Xenofonte, com os seus Ditos memoráveis de Sócrates, mas ele foi pouquíssimo ouvinte de Sócrates na sua juventude e só foi escrever sobre o pensador, na velhice. Seus escritos partem de questões especulativas.
Nota-se que não há um único pensador que tenha transcrito com maior clareza sobre Sócrates, até mesmo Aristóteles escreveu sobre o autor, mas por não ter tido um contato direto deixou pouco preciso as afirmativas, mesmo tendo verificado cada pensamento do autor. Assim, a atitude para redefinir o pensamento socrático é colocar os diferentes pontos de vistas dos autores e encontrar algo que seja comum.
O que se sabe de Sócrates, foi que assim como os sofistas ele não valorizava a fisis, ou a natureza, (o cosmo). Para ele, quem se detinha nas coisas da natureza se esquecia do mais importante, de si mesmo: o homem e os problemas do homem. Depois de mover-se contra os naturalistas, ele começou a fundamentar sua filosofia, como Xenofonte descreve:
Ele, por sua vez, discorria sempre sobre os valores humanos, procurando o que fosse pio, o que fosse ímpio; o que fosse belo, o que fosse feio; o que fosse justo, o que fosse injusto; o que fosse a prudência, o que fosse a loucura, o que a coragem, o que a vileza; o que fosse o Estado, o que fosse estadista; o que fosse o governo, o que fosse o governador e as outras coisas cujo conhecimento, segundo ele, tornava os homens excelentes e cuja ignorância, ao contrário, fazia merecer, justamente, o nome de escravos (I, 1, 16).
Nesse distanciamento da natureza, Sócrates é o primeiro a tratar da psique como o eu consciente, a personalidade intelectual e moral. Sendo assemelhado a alma.
“Ó tu que és o melhor dos homens, que és ateniense, cidadão da maior e mais renomada cidade por sua sapiência e poder, não te envergonhas de te preocupares com riquezas, para juntá-las o mais que puderes, e com a fama e com honras; e, ao invés, de não te preocupares com a inteligência e com a verdade e com tua alma, para que ela se torne quanto possível ótima?” Outra coisa, na verdade, não faço com esse meu andar por aí, senão persuadir-vos, jovens e velhos, de que não deveis cuidar do corpo e das riquezas, nem de nenhuma outra coisa, antes e mais que da alma, para que ela se torne ótima e virtuosíssima; e que não é das riquezas que nasce a virtude, mas da virtude nascem as riquezas e todas as outras coisas que são bens para os homens, tanto para os cidadãos individualmente, como para o Estado (29 d -30 b).
Para Sócrates, as únicas preposições que importavam eram: Conhecer a si mesmo e cuidar de si mesmo. O conhecer a si mesmo não está ligado a conhecer o próprio nome, a imagem no espelho, mas conhecer a própria psique. Do mesmo modo, cuidar de si mesmo não se refere ao corpo, mas a própria alma. Nota-se que a filosofia que Sócrates é um voltar para a interioridade do homem. Um olhar que aprofunda na existência e no porquê de se existir.
Segundo a citação, não adianta cuidar do corpo, dos bens, da beleza e de tantas outras coisas externas, se esquecendo do mais importante, da psique. A alma, a moralidade, a consciência do existir serão sempre superiores. Mas pode-se questionar, ele apenas ensinava como os sofistas a argumentar sobre a alma? De modo algum, segundo Platão no prologo de Protágoras, os sofistas eram vendedores dos alimentos da psique e no qual não conheciam os alimentos e nem a psique. Já Sócrates, se colocava como conhecer dor dos alimentos e da própria psique.
Há uma inversão ao sofismo. Sua filosofia coloca o olhar sobre a alma do homem e os seus sentidos. Sócrates mostra que conhecer a si mesmo é uma tarefa da psique sobre o próprio eu. No diálogo a seguir é possível perceber essa nova filosofia:
Sócrates — Ora, teríamos conhecido qual é a arte que torna melhor os calçados, se não conhecêssemos o calçado?
Alcibíades — Impossível.
Sócrates — Nem a arte que torna melhores os anéis, se ignorássemos o anel?
Alcibíades — É verdade.
Sócrates — E então? Jamais poderemos saber qual é a arte de tornar melhores a nós mesmos, se ignoramos o que nós mesmos somos.
Sócrates — Mas, ó Alcibíades, fácil ou não, para nós é assim: se nos conhecermos, saberemos talvez também qual é o cuidado que devemos ter com nós mesmos; se não nos conhecemos, jamais o saberemos.
Sócrates — E não se serve o homem de todo o corpo?
Alcibíades — Certo.
Sócrates — Mas, não dissemos que uma coisa é quem se serve de algo, outra coisa é aquilo de que ele se serve?
Alcibíades — Sim.
Sócrates — Uma coisa, portanto, é o homem, outra o seu corpo.
Alcibíades — Parece que sim.
Sócrates — Que é, pois, o homem?
Alcibíades — Não sei dizer.
Sócrates — Isso, porém, podes dizer, que ele é o que se serve do corpo.
Alcibíades — Sim.
Sócrates — E o que é o que se serve do corpo senão a alma?
Alcibíades — Não é outra coisa [...].
Sócrates —A alma, portanto, nos ordena conhecer quem nos admoesta: “Conhece a ti mesmo” (128 d – 130 e).
Percebe-se que a psique compreende a alma como separação do corpo, conhecer a si mesmo é a mente pensando o próprio corpo. Sua filosofia coloca o homem diante de si mesmo e o questiona, quem é você? Por que faz o que faz? Sócrates não buscar dar as respostas, mas coloca no próprio homem o herdeiro da verdadeira resposta. Somente no autoexame podereis conhecer a si mesmo. Como se a resposta já estivesse em nós, somente não a observemos.
Podemos alongar os pensamentos socráticos para a contemporaneidade, nas seguintes questões: Por que compramos as coisas? O que nos leva a tomar decisões? O que são os nossos impulsos? Por que sofremos de ansiedade? Qual o motivo da nossa tristeza? Por que deixamos de viver o agora? Para onde vamos e o que queremos quando os mais diversos vícios nos apoderam? Aliás, quem e você?
Simplesmente fantástica a filosofia socrática, o olhar para o eu na fundamentação de quem somos. Para Sócrates somos os nossos próprios objetos de estudo. Não se tratando de um psicologismo, mas uma busca pela razão de existir. A busca pelo sentido do amanhecer e sobre a nossa atitude ao amanhecermos. Sócrates olha para o humano e busca nele a razão do existir, o fundamento para toda uma vida, uma razão para fazer da vida sempre uma nova possibilidade.
Portando, nessa introdução ao pensamento socrático é possível identificar a grande virada que sua filosofia trouxe ao mundo grego. O homem já não olha mais a natureza e busca nela o sentido de sua existência, mas se preocupa na psique pensar o corpo como objeto de conhecimento.
Texto citado:
DIELS, Hermann. Die Fragmente der Vorsokratiker, griechisch und deutsch. Weidmann, 1922.

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