top of page

Razão ou Sensibilidade? O que é primordial?

  • Lucas Bigogno
  • 5 de mai. de 2024
  • 7 min de leitura

Atualizado: 6 de mai. de 2024



O autor desta vez é Parmênides. Como no titulo, o autor discorre sobre as vias de conhecimento, uma denominada de via da verdade e a outra vi das opiniões. Sendo uma dessas a mais importante. Antes de adentrar ao texto, vale esclarecer que sensibilidade neste contexto tem a correlação de uma experiência com as coisas da realidade, como por exemplo o ato de sentir a agua do rio correr. Para isso ele mostra que a sensibilidade está ligada às coisas que são, ou seja que acontecem. Já no âmbito da razão, ele quer descrever como sendo a pura reflexão logica sobre os acontecimentos da realidade da coisa que é. A coisa que é, segundo o autor, não apresenta contradições. Sem mais delongas, boa viagem ao mundo grego.


Durante as leituras dos textos postados neste blog, percebe-se que a filosofia é um contínuo desenvolver-se sobre o logos (razão) humano. A passagem do pensamento que se fixava na sensibilidade para o que se funda na racionalidade (Parmênides), só é possível pois a sociedade grega se desenvolveu e suas concepções foram levadas a um processo crítico radical.  Mas, as passagens filosóficas não se desdobram por saltos, há influências de outros autores e de suas épocas. Aminias, um pensador da escola Pitagórica, é considerado como o principal influenciador da filosofia de Parmênides.  


Parmênides foi conhecido na sua época por diferentes pensadores como um estudioso da natureza para além de filosofo. No âmbito da filosofia da physis (natureza), apresenta-se como inovador radical e, em certo sentido, como pensador revolucionário. Efetivamente, com ele, a cosmologia recebe como que um profundo e benéfico abalo do ponto de vista conceitual, transformando-se em uma ontologia (teoria do ser, do que é). 

Desde Tales de Mileto, os gregos dispunham da ideia do mundo sem nascimento nem morte, onde há os seres nascidos e mortais. Ou seja, uma realidade imutável (do que é) e no interior dela os acontecimentos de nascimento e morte, em devir e mudança (das coisas que são). Uma só realidade pensada a partir da totalidade e da unicidade, do particular e do plural.  Parmênides seguiu esta linha e a enriqueceu com sua reflexão autêntica. 


Parmênides escreveu um poema com grande carga filosofia e cheia de significados. As formas com que os filósofos escrevem dizem muito da época em que viviam, pois eram maneiras de aproximarem a filosofia da língua popular. Lembrando, que fazer filosofia para eles era muito mais que um pensamento abstrato, mas um pensar que gere mudança sobre o modo de olhar as coisas e a si mesmo diante do mundo. 

O seu poema pode ser dividido em duas partes: a via da verdade e a via das opiniões. No poema, Parmênides descreve que é levado ao encontro de uma deusa que lhe revelará as vias, como descrito: 


É necessário que tu aprendas tudo, /quer o fundo imutável da verdade sem contradição, / quer as experiências dos homens, nas quais não há verdadeira certeza. / Mas a qualquer custo também estas aprenderás, visto que as experiências / devem ter um valor para aquele que investiga tudo em todos os sentidos (DK28 B1, 28-32). 


Como fica claro, a via da verdade está inteiramente ligada ao intelecto e não as experiências. Sendo as experiências a via das opiniões. Não se pretende dizer que a via das opiniões ou da experiências sejam mentirosas ao qual não se deve confiar, mas se configura apenas de modo diferentes da razão. Na via das experiências (da sensibilidade), para que se tornarem verdades devem passar no crivo da não contradição pela racionalidade. 

A novidade que Parmênides inaugura está na clareza com que os dois métodos de investigação são dispostos. Como na citação acima, fica explicito que são dois princípios distintos, da racionalidade (não contradição) e da sensibilidade (das opiniões). Assim como os pensadores que lhe precederam, a divisão da realidade em unidade-todo e multiplicidade permanecem sendo características semelhantes. Estes dois métodos, podem estar diante do mesmo objeto, mas levam a conclusões diferentes. 


A intuição lógica que Parmênides tem em seus escritos são particularidades que podem o denominar como pai da lógica. No seu texto ele distingue a realidade em uno-todo como o que é, já a multiplicidade é disposta como as coisas que são. Não se trata de uma realidade que existe e outra que não. Havendo só uma realidade dividida em dois princípios:  O primeiro pode ser distinguido como eterno e imutável e o segundo como das coisas múltiplas da existência. 

Para ficar clara essa distinção das realidades, a noção de sensibilidade e racionalidade são fundamentais. Pois, Parmênides quer deixar explicito que racionalmente, pela lei da não contradição, existe o que é e não pode não ser; pode-se ter como exemplo o número 1 ele é 1 e não pode ser 2, pois é 1. No segundo ponto da multiplicidade, o autor quer mostrar que as experiências são diversas e via de opiniões. Como para Heráclito, entrar no rio era sempre algo novo, já Parmênides acredita que as opiniões não seguem o crivo da não contradição. Ou seja, qualquer pessoa tira as conclusões que quiserem ao entrarem no rio. Mas todos tem que admitir que 1 é 1 e não é 2, porque logicamente são distintos em unidade.


Parmênides traz uma novidade de conciliar os dois pensamentos como formas de olhar a mesma realidade, sua inovação está na lógica usada para reafirmar suas convicções. Como disposto: 


É necessário dizer e pensar que aquilo que é existe, de fato, só é possível que ele exista enquanto o nada não existe: sobre isto te convido a refletir (DK28 B6). 


Agora devemos apenas falar da via/que existe: sobre esta via há muitos sinais,/relacionados com o fato de que aquilo que é é ingênito e indestrutível./É de fato compacto em suas partes e imutável e sem um fim ao qual aspirar:/não era nem será, pois que é agora um todo homogêneo,/uno, contínuo. E com efeito que origem lhe darias? /Como e onde poderia ser aumentado? Do que não é não to permitirei/ nem dizê-lo nem pensá-lo: porque o que não é não é exprimível nem pensável/ dado que não existe [...]. / Como poderia o que é existir no futuro? Como poderia nascer?/Se de fato era, não é; igualmente, se ainda deve ser, não é./Assim se eliminam os conceitos incompreensíveis de nascimento e morte./Nem mesmo é divisível, dado que é todo igual [...]./Por isso é todo contínuo: porque o que é é uno com o que é. (DK28 B8, 50-61). 


Em relação a ele foram dados todos aqueles nomes/que os homens estabeleceram acreditando serem verdadeiros,/isto é, nascer e morrer, existir e não existir [...]. (DK28, B9). 


Nos trechos acima é possível notar como a realidade é colocada sob a perspectiva da lógica, no qual ser e não ser não podem existir de igual modo. Parmênides descreve de modo ímpar como a lei da não contradição ou a logica, dispõe da realidade enquanto unidade do que é. A racionalidade mostra que o que é não pode deixar de ser. O rio não pode deixar de ser rio. Ele pode secar, mas enquanto cheio, sempre será rio.  

Na segunda parte do seu poema Parmênides opõe as ideias dos contrários presentes na filosofia pitagórica como: verdadeiro e falso, luz e noite. Logicamente, em seu sistema, era inconcebível compreender uma realidade que não existe ou que não é verdadeira dentro do que é. A realidade mostra-se cheia de multiplicidade, ou seja, no uno-todo a luz e noite são composições de todas as coisas. Não havendo distinção. No seu poema ele dispõe da seguinte forma: 


Mas dado que todas as coisas foram chamadas luz e noite, /e o que é conforme às suas propriedades é atribuído a esta ou àquela coisa, /tudo está igualmente cheio de luz e de noite escura/e ambas se equilibram, pois cada coisa provém da união das duas (DK28 B9). 


Com isso, as coisas que são, multiplicidade, como a noite e o dia, o mais e o menos, a vida e a morte; são formas múltiplas da vida presente no que é. O cosmo é tudo e sempre foi. Nele as coisas acontecem como sinais, formas diversas da realidade.  Dentro do mundo que é, a multiplicidade mostra seus sinais através da sensibilidade. A proposição de ver contradições entre luz e escuridão só advém da experiência, do sensível. Com isso, Parmênides coloca que essas contradições não existem. Como a deusa lhe disse, são opiniões falseadas. 

Em relação ao conhecimento, os antigos mostram que assim como a noite e dia é conhecida pela experiência de forma sensível, ou seja, conhecemos o dia e o cair da noite. Essa relação era feita pelos pitagóricos como a ideia de contrários, vida e morte. Para Parmênides, o conhecimento era obtido pela observação da natureza e incorporada ao intelecto. Quando o autor vai de encontro com a deusa, ela lhe expõe as via da verdade, o logos (razão) e não a observação. Com isso, a racionalidade é a capacidade logica de observar o mundo. Neste ponto a experiência da realidade é uma categoria subjacente, que não se encontra no centro do seu pensamento.  


Se retornamos aos primeiros filósofos, como tales de mileto, será possível perceber que a filosofia ou o pensamento sobre a realidade era sempre feia a partir das coisas externas. Os filósofos anteriores, olhavam a natureza e retiravam dela, através da sensibilidade, formas de compreender a realidade. Neles já era possível identificar o princípio logico de validar as coisas pela observação. Assim como e o princípio matemático.  

Vale lembrar de Heráclito, filosofo da realidade do todo fluir, que valida seu pensamento filosófico a partir da experiência do rio. Fatores externos determinavam como seriam minha capacidade intelectiva de compreender a realidade. Há contribuições importantes nele, com certeza, mas a filosofia de Parmênides é a primeira a funda na racionalidade humana a capacidade de olhar a realidade e compreendê-la de modo distinto. A experiência já não é o centro do pensar, mas a mente se torna fator primordial para a compreensão da realidade. 


Ele dispõe que os fenômenos da experiência, na multiplicidade, deve seguir por uma reflexão consciente, para que não se caia nos erros dos antigos e nas meras opiniões humanas. A sua filosofia pretende se distanciar das opiniões que são tiradas de pequenos recortes da realidade e são levadas ao crivo da razão. Assim a mente segue como agente na realidade múltipla dos acontecimentos. 

Fatos curiosos e interessantes para a época no pensamento de Parmênides, foram suas compreensões do homem provindo da terra; que a luz da lua é oriunda do reflexo do sol. Pode-se dizer que ele desenvolveu uma teoria da evolução ao identificar a terra como genitora de todos os seres da realidade. Na questão de onde surgiu o mundo e os seres humanos, ele fundamenta que todos os seres humanos foram gerados pela terra e suas características foram sendo assemelhadas de modo gradual, pela evolução.  

Portanto é possível sintetizar o pensamento de Parmênides na seguinte passagem, no qual fica claro a noção de unidade entre a sensibilidade e a racionalidade: 


E com efeito, conforme a relação que em cada um se instaura entre as móveis partes que o constituem, /assim nos homens se determina a mente; porque é sempre o mesmo/aquilo que nos homens pensa: a natureza das suas partes constituintes, /em todos e em cada um. O pensamento é, de fato, a união de todas estas relações (DK28 B16). 


Aqui o autor exemplifica toda a sua teoria na imagem do corpo. Os seres humanos são um ser racional no qual a mente uni a sensibilidade com a racionalidade. Fazendo dos resultados a unidade presente no corpo. Portanto, em sua filosofia é impossível compreender separadamente racionalidade e sensibilidade enquanto coisas opostas.



Obrigado por ter lido. Aguardo comentários e sugestões.

Lucas Bigogno.



Textos citados:

DIELS, Hermann. Die Fragmente der Vorsokratiker, griechisch und deutsch. Weidmann, 1922.



Comentários


Lucas Bigogno

©2024 por Lucasbigogno. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page