Já entrou duas vezes no mesmo rio?
- Lucas Bigogno
- 19 de abr. de 2024
- 5 min de leitura
Atualizado: 5 de mai. de 2024

Imagine a seguinte situação: Você está diante de um rio, as águas correm sem parar. Em sua mente você decide adentrar ao rio, no exato momento em que entra na água, sua experiencia é de muito frio, pois decidiu entrar as 7:00 da manhã. Passada algumas horas, aparentemente o rio permanece ali sendo o mesmo, você volta e pensa novamente em entrar nele. Mas em sua mente está a sua primeira impressão obtida. Contrariando o seu instinto, adentra à água e percebe que ela já não se encontra tão fria assim. A água e você eram o mesmo da primeira experiência?
Que estranho pensar nisso né?! Mas o primordial é que a partir do momento em que obteve a primeira experiência você está condicionado a pensar um próximo passo a partir desta experiência. Porque você já não é o mesmo, assim como a água não é a mesma. O rio corre e o seu eterno fluxo não lhe deixa experimentar a mesma água duas vezes. O que está em jogo aqui não é o simples fluir da água, mas o que nos causa essa fluidez. Por que não somos os mesmos, já que água sempre é água e você é sempre você?
Como não é possível entrar no mesmo rio duas vezes?
Assim como os filósofos que antecederam a Heráclito, ele buscava um princípio para todas as coisas e o modelo encontrado foi o movimento. Segundo ele tudo flui e nada permanece estável para sempre. Movimento é uma forma de constância na vida humana, pois o presente é sempre um devir. A imagem do rio é bem exemplar para Heráclito, pois segundo ele quando entramos no rio pela segunda vez, não somos o mesmo e o rio também não é o mesmo. A água flui e nunca permanece a mesma e a nossa experiência se modifica da primeira vez que entramos nela.
Percebe-se que para Heráclito, a sensibilidade ou as impressões obtidas pela experiencias são fundamentais para o desenvolvimento do conhecimento humano. Ele utiliza da sensibilidade para fundamentar sua filosofia para além das primeiras impressões. Como se verá no decorrer do texto, o autor busca demonstrar com a imagem do rio que a vida não é o que aconteceu no passado e nem o que acontecerá no futuro, mas é a eterna presença de nós no agora. A nossa ansiedade pelo futuro ou a depressão pelo passado, são formas de não vivermos o agora. Assim como o rio flui, a vida passa e tudo que temos é o agora.
Heráclito não quer simplesmente esboçar que a sua filosofia é um completo relativismo da experiência, não sendo capaz de dar-nos seguridade sobre a existência das coisas. Muito pelo contrário, Heráclito deixa evidente a relação dos contrários, somos e não somos os mesmos ao entrarmos no rio. Segue seus fragmentos:
Águas sempre diversas correm para os que se banham nos mesmos rios (DK22 B12).
Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos (DK22 B49a).
No mesmo rio não é possível entrar duas vezes (DK22 B91).
Compreender plenamente esta relação pode ser difícil na primeira leitura, mas o autor deixar claro que o ser humano é um produto do passado e do futuro que se dá no presente. Nós não somos mais os mesmos de 1 segundo atrás e daqui um segundo não seremos os mesmos de agora. Há uma compreensão da realidade em que a vida não é engessada e feita de bonecos já predeterminados, ela é dinâmica e cheia de novas possibilidades.
Podemos verificar esses contrários num aspecto muito importante da nossa realidade. Na historia da humanidade já ocorreram duas guerras mundiais e uma guerra fria, qual é o objetivo da implementação de uma guerra? Não seria a Paz.
Os contrários se fazem presente na nossa realidade em todo momento. Para a filosofia, estas contradições vão de encontro com o problema da linguagem. Já em Heráclito ou como veremos em Parmênides, suas filosofias voltam para o aprofundamento da linguagem como uma problemática.
“O fogo vive a morte da terra e o ar vive a morte do fogo; a água vive a morte do ar e a terra a morte da água. A morte da terra é água, a morte da água é ar e a do ar é fogo, e assim por diante” (DK22 B76).
Neste fragmento de Heráclito, percebe-se mais fortemente a intensificação dos contrários. O fator primordial é compreendermos que nesta tensão simultânea entra guerra e paz, ser e não ser, vida ou morte e outras; há algo que está sempre presente, o humano. Somos feitos de vida e morte, a cada dia vivido é um passo mais próximo de nossa morte.
Vivemos imerso nas contradições aparentes e o viver permanece sendo em nos. Por mais próximo da morte que estejamos, mais almejamos a vida e a vida em abundancia.
Para Heráclito, viver não é simplesmente seguir o que a multidão diz, como se a multidão fosse mestre do bem viver, mas é um adentrar e refletir sobre as profundas tensões da realidade. Buscando compreender-se enquanto ser no mundo do não ser.
Por fim, Heráclito descreve brevemente o objeto central de sua investigação: “Investiguei sobre mim mesmo” (DK22 B101). Sua filosofia, com os problemas dos contrários, a questão da linguagem e outras; se originam no próprio pensamento do EU. Por natureza, a filosofia é um voltar-se reflexivo para o próprio humano. A projeção do homem como vivente em meio às contradições ou aos contrários da vida, serve como um alerta de atenção que pretende trazer o homem de volta a pensar o si mesmo no mundo. O pensar a si mesmo será visto novamente na filosofia de Sócrates.
Estar diante do passado e do futuro é um convite ao presente. A vida se faz na simultânea presença do agora entre o passado e o futuro. A própria figura da multidão como um mestre para muitos, usada pelo autor, nos remete as opiniões mais diversas possíveis que pairam sobre nós nas redes sociais, sendo que na maioria dos casos não servem como verdade. A única saída para esta imensidão de informações alheias é um voltar-se sobre a investigação do eu, e sermos sempre presentes. No qual o passado é sempre memória e o futuro se tornará consequência de quem somos no agora.
Uma breve citação extemporânea é de Shakespeare, no monólogo de Hamlet: “Ser ou não ser eis a questão?” Neste ponto, viver é uma escolha. Ou viveremos de forma autêntica ou seremos meras reproduções da multidão.
Após este longo texto, aqui se encontra uma pequena reflexão: por que utilizar a razão e pensar-se em primeira pessoa, se, aparentemente, é tão doloroso pensar o eu? “É próprio da alma um logos (razão) que se aumenta a si mesmo” (DK22 B115). Para Heráclito é inevitável pensar-se a si mesmo, pois é próprio do humano em projetar ou colocar-se em projeção sobre a sua existência, visto que a morte é o único horizonte de possibilidade que já é certo desde o nascimento. Quanto mais refletirmos sobre a realidade, mais amplo será a nossa capacidade de ver o mundo como possibilidade e não como limitação das ações. O próprio autor descreve: “Se não se esperar o inesperado, não se encontrará o que é inacessível e não se o pode achar” (DK22 B18). Ou seja, se não almejarmos mais de nós mesmos, não poderemos desejar algo melhor para a nossa realidade. Somente com a elevação do eu em forma de autenticidade a realidade tenderá a se modificar.
Neste ponto, para Heráclito alma e a vida não se separaram. Pensar para além da alma é construir novos horizontes para que na vida presente seja possível desfrutar dela. Alma e vida são formas de pensamento e ação sobre a realidade de cada um.
Textos Citados:
DIELS, Hermann. Die Fragmente der Vorsokratiker, griechisch und deutsch. Weidmann, 1922.
SHAKESPEARE, William. A tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca. Ubu Editora, 2020.



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