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Filosofia não pode ser profissão? Segundo os puros, não!

  • Lucas Bigogno
  • 19 de mai. de 2024
  • 6 min de leitura


Protágoras

Ensinar filosofia, fazê-la acessível a todos e receber um salário por isso é errado? Segundo Sócrates, Platão e Aristóteles, a filosofia não podia ser artigo comercial. A atitude populista dos sofistas, por levarem a filosofia de cidade em cidade a serviço do povo, foi grandemente combatida na história da filosofia como filósofos menores, de menor importância e valor. Talvez esse modo de pensar não esteja muito distante, pois em muitos círculos acadêmicos, a filosofia que é destinada ao ensino médio, e compreendida como uma redução e pouco valorosa. Com isso, somente nas faculdades de filosofia se encontraria o verdadeiro estudo de filosofia. 


De imediato é possível perceber os problemas presentes na comunicação da filosofia, desde a antiguidade, com a população, mas deve-se antes expor como esses pensadores, os sofistas, dispunham de seus conhecimentos e quais os métodos aplicados por eles nas suas aulas em público ou, atualizando, nas palestras. É importante ter em mente, que eles cobravam pelas palestras. Não eram totalmente abertas, mas o seu ensino não se destinava somente aos pensadores ou filósofos da época. Os sofistas têm o mérito de abrir a filosofia e seus ensinamentos para qualquer pessoa que queira pagar, leigo ou letrado.  


O surgimento dos sofistas e datado a partir do século V a. C. e eles eram denominados de sábios, homens peritos em muitas coisas. Eles andavam de cidades em cidades, davam cursos, palestras, animavam a população e cobravam por essas aulas. Essa maneira de lidar coma filosofia ou na sua disseminação, foi condenado por autores clássicos da filosofia como falsários da cultura. As oposições provinham de Sócrates, o historiador Xenofonte, Platão e Aristóteles. Normalmente eram críticas provindas de uma ala conservadora da aristocracia, no qual idealizavam o conhecimento como algo puro. Para tanto, os sofistas eram denominados de corruptores desta pureza, por levar o conhecimento com custos financeiros. 


Xenofonte os apelidou de os “prostitutos” da cultura (DK 79, 2a); Aristóteles também os descreve como “mercador de sapiência aparente e não real” (DK 79, 3). Pode-se perceber uma grande crítica ao trabalho dos sofistas e suas influências na sociedade. Essa forma de olhar os pensadores que faziam da filosofia algo público e popular se tornou tão determinante, que Platão e Aristóteles, os grandes influenciadores do pensamento grego no ocidente, determinaram o modo de olhar os sofistas. Somente no início do século XX os historiadores da filosofia começaram a compreendê-los de outro modo. Por serem expoentes, canonizaram praticamente toda a forma de olhar o mundo grego. Mas porque essas críticas eram feitas de modo tão incisivo? Quem foram os chamados sofistas e o que eles defendiam? Quem foi Protágoras? 


Precisa-se lembrar que o surgimento desses pensadores coloca em evidência a crise do mundo grega. Com a gradual decadência das influências que os aristocratas detinham sobre as cidades. As grandes viagens e a relevância dos outros povos no mundo grego, fez com que surgissem duas ideias significativas para a época: a relatividade dos valores culturais, que se manifestava pelo confronto de ideias; com ela a noção de unidade da humanidade, sem diferenciação de classe e nação. Não comum aos gregos, pois se pensavam superiores aos bárbaros (povos não gregos). 


Os sofistas surgiram como pensadores que lutava contra os princípios do utilitarismo selvagem, do egoísmo, contra o direito absoluto do mais forte. Lutavam exaltando a importância da construção política, exaltando a naturalidade e a espontaneidade da vida humana.  


Adentrando ao sofismo, Protágoras de Abdera foi o maior expoente dessa corrente filosófica. Suas obras mais importantes foram: A verdade e as Antilogias. No texto sobre a verdade, rendeu comentários de Platão e Sexto Empírico:  


De todas as coisas o homem é medida, daquelas que são como são, daquelas que não são como não são. 

Protágoras defende que “de todas as coisas o homem é medida, das que são como são, das que não são como não são”; e entende por medida o sentido de critério, e coisas o sentido de fatos; de maneira que ele quer dizer que o indivíduo relaciona-se sempre com todos os acontecimentos (naturais e humanos) [...]. Por isso, ele admite só o que aparece ao indivíduo, afirmando assim o princípio da relatividade [...]. Diz, portanto, que a matéria flui e continuamente se substitui algo por algo que desaparece, assim as sensações transformam-se e modificam-se segundo a idade e segundo as diversas disposições do corpo (DK 80 A 14). 


Fica notório como a filosofia começa a contrapor os ideais proféticos que autores anteriores detinham para se comunicar. A realidade para seus predecessores era vista quase sempre subjugada por uma voz profética. Mesmo Parmênides, se utilizou desta linguagem para transmitir sua filosofia. Até mesmo filósofos que defendiam um raciocínio lógico absurdo, permaneciam imersos a linguagem de seu tempo. Perpetuando a figura idealista de uma sociedade estática e imutável.  


As mudanças políticas e socioculturais, foram fatores preponderantes para que aparecessem filósofos como Protágoras. Afirmando que a vida é feita de experiências com a realidade presente, não havendo determinações previas para a segmentação da sociedade. Com isso, os indivíduos estavam sempre em relacionamento com os acontecimentos que os circundam. No âmbito da relação homem/mundo, os sofistas foram os mais convictos da validação da experiência sensível. Para tanto, os homens enquanto indivíduos, poderiam conjugar com a realidade uma dialética de ininterrupto aprendizado e desenvolvimento.


O conhecimento humano foi outro ponto que recebeu contribuições dos sofistas, pois a filosofia não era para poucos e estáticas num determinado estrato social, mas era dinâmica e podia ser feita a partir de qualquer experiência entre homem e mundo. Caracterizando um alargamento do conhecer humano. Para tanto, os sofistas ajudaram a mostrar que o homem não é inserido no mundo já criado, mas ele pode criar-se no mundo. Como as coisas mudam e se transformam, o homem participa desse processo individualmente. 


Contrapondo a filosofia de Parmênides, Protágoras distingue a lógica, neste novo mundo de ideias, como: Foi o primeiro a dizer que acerca de cada fato há dois discursos contrapostos entre si (DK80 A1, B6a). 


A lógica deixou de ser unanimidade em um único discurso, passando a ser vista como dinâmica. Essa implicação será vista posteriormente, pois os discursos lógicos são sempre válidos por seu raciocínio interno, mas nem sempre são verdadeiros. Por exemplo: todo homem é cachorro, todo cachorro come ração, logo os homens comem ração. Logicamente é correto, mas não é verdadeiro. 


Deste mesmo modo, Protágoras contrapõe uma lógica que se colocava como verdadeira e imutável. A busca anterior era por uma verdade unanime na lógica. Ele mostra que a lógica pode contrapor-se, não necessitando de ser puramente verdadeira. A questão da lógica se junta ao conhecimento, pois não se tratava de um relativismo completo, mas que cada indivíduo olha um determinado fato de maneira única. Tirando suas experiências lógicas. O conhecimento é dinâmico e não estático, podendo ser adquirido de diferentes modos num mundo que se mostra sempre de maneira diferente. Não existindo discursos falsos. 


Foi neste período dos sofistas que ocorreu o maior desenvolvimento em relação ao falar, sobre as habilidades de persuasão e técnicas argumentativas. Surgindo prováveis tratados de oratória ou retorica. A noção do discurso e o estudo da linguagem foram os expoentes, que Protágoras é, possivelmente, o primeiro a distinguir os gêneros dos nomes, os modos dos verbos. Seu estudo exaustivo da linguagem lhe possibilitou ser um excelente orador e ter grandes números de adeptos em suas aulas. Assim, ele caminhava de cidade em cidades ensinando suas técnicas e a relatividade da experiência. Seus ensinamentos lhe renderam grandes elogios e distorções, como a denominação de corruptores da boa filosofia. O uso da linguagem e da oratória como modo de se comunicar de maneira mais assertiva, contribuiu para esse olhar sobre eles.  


Assim, sua filosofia foi colocada de forma pejorativa e negativa. Outro fator relacionado à linguagem, segundo o autor, é a relação entre linguagem e objeto. O intento é compreender se há uma justa ligação entra os nomes e as coisas. Por exemplo: quando olhamos uma cadeira, é notório o seu formato e principalmente por ser feita para se sentar. Mas o nome dado à cadeira se relaciona ao material que ela é feita, ao seu formato ou a sua função? 


Protágoras não chegou a examinar em particular os objetos, mas ao falar dos deuses, fica aparente o surgimento dessa possibilidade. A dúvida em relação a linguagem e a existência dos deuses eram fatos que o conotavam como ateu. Como diz Laercio sobre Protágoras: 


Sobre os deuses não posso saber se são nem se não são nem que forma têm; com efeito, muitas coisas se opõem ao nosso conhecimento: o fato de não poderem ser objeto de conhecimento sensível e o de a vida humana ser breve (DK80 B4). 


A grande questão está na identificação da linguagem com a coisa destinada, pois o que são deuses? Para eles serem, devem extrapolar a nossa linguagem. Sobre o qual não poderíamos falar. Na Idade média, com o neoplatonismo, será possível ver grandes pensadores caminhando nesta direção. Colocando que sobre Deus, nada se pode falar. Esse modo de olhar para as divindades, é caracterizada pela falta de experiência com ela. Não se tem correspondências imediatas do divino com o humano em que se possa validar qualquer argumentação. O problema disposto por Protágoras está na falta de experiência para que a linguagem encontre correspondência. 


Portanto, Protágoras não pensa puramente num discurso lógico que só queira a verdade para todos. Ao contrário ele busca discursos políticos nos quais a concessão é o melhor caminho. Não existe a verdade sobre o bem e o mal, existem o que é bom para alguns e mal para outros. A lei seria o melhor discurso no consenso humano. Vale ressaltar, que na maioria das vezes as suas aulas eram ministradas a políticos e pessoas voltadas aos interesses políticos. Pois ensinava a arte da retorica e do convencimento. Lembrando que nesta época a sociedade estava saindo da aristocracia para a democracia grega. Sendo fundamental o poder da fala e do convencimento. Esse fato não retira o mérito de estarem levando a filosofia a todos que se interessem por ela independentemente de serem filósofos ou não. 

 

Texto citado: 

DIELS, Hermann. Die Fragmente der Vorsokratiker, griechisch und deutsch. Weidmann, 1922. 

 

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