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Conhecemos somente pela razão? - Part. 2

  • Lucas Bigogno
  • 7 de jun. de 2024
  • 4 min de leitura

E a experiência Sócrates? part. 2.


No texto introdutório acerca de Sócrates, foi visto como a psique passa a ter lugar elevado para a formação do eu social, no fundamento de si mesmo. Alongando a questão da psique, ele a coloca diretamente ligada a noção de ciência/conhecimento. Um homem plenamente em si mesmo, na sua psique, é pleno em conhecimento. O aumento de si mesmo, cresce na mesma proporção do conhecimento. O autoconhecimento fará crescer o conhecimento das coisas.

 

Corroborando a isso, a noção de beleza parte da interioridade de cada um. No diálogo com um pintor, Sócrates indaga sobre a possibilidade de pintar a alma, a princípio o pintor rechaça tal pretensão. Mas o autor conclui que a pintura das expressões faceais, ou esculpir uma certa característica ou fisionomia de alguém retrata a sua alma, a raiva, o olhar altivo, a humildade, ou a soberba. São características inevitáveis ao se deparar com alguém. Assim, a alma expressa-se de modo intrínseco no corpo; é inevitável, o corpo expressa a alma. Diálogo: 


— E não se deve retratar também os olhos ameaçadores dos combatentes, não se deve imitar o rosto cheio de alegria dos vencedores? 

 — Sem dúvida. 

— O escultor, então, deve reproduzir, através da forma exterior, as atividades da alma (III, 10, 6 ss.). 


Mas para tanto, a alma (psique) possui lugar elevado sobre o corpo, pois uma pessoa plena e serena, só pode ser vista com uma alma plena e serena. Enquanto as belezas exteriores podem ser falseamentos de almas precárias e sem conhecimento. A exterioridade passa a ser abandonada e legada a um lugar secundário na filosofia socrática. Com isso, o corpo é desvalorizado. A única fonte de conhecimento possível é a psique.


Deste modo, a filosofia socrática abandona as experiências e suas correspondências ao conhecimento. Ou seja, não há uma experiência no mundo que possa servir como fundadora de um novo conhecimento. Todo o conhecer humano está na psique. No diálogo seguinte, é possível ver Sócrates defendendo uma felicidade que não se encontra ligada à exterioridade, mas à psique:


— Talvez, Sócrates, o bem mais indiscutível seja a felicidade. 

— A menos que seja composta de bens discutíveis, Eutidemo. 

— E quais dos bens que constituem a felicidade seriam discutíveis? 

— Nenhum, desde que nela não incluamos a beleza, a força, a riqueza, a fama e coisas similares. 

— Mas é necessário incluí-las, disse. Como ser feliz sem elas? 

— Por Zeus!, exclamou Sócrates. Desse modo estaríamos incluindo aquilo de que provêm tantos males aos homens. Muitos, pela sua beleza, são corrompidos por quem perde a razão diante de uma pessoa graciosa; muitos, fiando-se na sua força, empreendem obras demasiado grandes e incorrem em não poucos males; muitos, debilitados pela riqueza, perecem nas insídias a que se expõem; muitos, por causa da fama e do poder político, padecem grandes desgraças (IV, 2, 34 s.).


Nessa passagem, aparentemente, Sócrates está conceituando a exterioridade como causadora de vario males, mas a passagem é descrita por Platão, que polariza indiscriminadamente a noção de mente e corpo. Pode-se tirar da citação grandes contribuições, como compreender que para Sócrates o mais importante é a interioridade. Assim, os homens que utilizam da psique conseguem praticar o bem, de igual modo, os ignorantes fazem o mal sem perceber, devido o não acesso ao bem. Sua posição não se encontra nas extremidades (antagonicas).


— E que se deduz dessas premissas? que todo o resto não é nem bem nem mal e, das duas coisas que permanecem, a ciência é um bem, a ignorância um mal (281 d-e). 


Na próxima citação é possível notar a noção de virtude presente no homem que pratica o bem, ou seja, se utiliza da psique. 


Sócrates acreditava que as virtudes eram raciocínios, de fato, sustentava que todas eram ciências (Z 13, 1144 b 28 ss.). 

E ainda: 

É estranho [...], pensava Sócrates, que onde há ciência reine algo de diferente e subjugue o homem como um escravo. Sócrates, com efeito, combatia frontalmente essa ideia, como se, segundo ele, não existisse a falta de domínio de si; ele pensava, de fato, que ninguém podia agir conscientemente contra o que é melhor, mas que só podia fazê-lo por ignorância (H 2, 1145 b 23-27). 

 

Sócrates entendia que a única coisa unicamente humana que temos é a psique, por isso uma separação entre mente e corpo é evidente. Se temos a psique, ou a grande virtude, tipicamente humana, sobra ao corpo trazer os vícios e as mazelas. Assim, não se pode tomar por errado o que se mostra como bem. A virtude no homem caracteriza a sua psique como reguladora de todas as ações. Uma pessoa com boas virtudes não pratica o mal. 


A virtude se atrela a predisposição do homem em praticar o bem, pois mostra-se conhecedor da ciência e do conhecimento. O ignorante, pelo contrário, seria alguém sem um nível adequado de conhecimento. Pode-se denotar um certo intelectualismo em Sócrates, mas ao compreendermos sua época, e a noção de homem político, poderemos perceber uma assimilação ao seu contexto. 


Por fim, Xenofonte descreve um colóquio de Sócrates com Eutidemo: 

— Em conclusão, parece-me que, segundo tu, ó Sócrates, quem se deixa vencer pelos prazeres do corpo nada tem a ver com qualquer virtude. 

— Certo, Eutidemo, disse Sócrates. Que diferença há entre o homem privado do domínio de si e o mais selvagem dos animais? Quem não discerne o melhor e procura fazer sempre tudo quanto sumamente lhe agrada em que difere dos animais mais irracionais? (IV, 5, 11 s.) 


Portanto, o conhecer em Sócrates está conceitualmente atrelado à virtude do homem em praticar o bem e o que é bom. Já a ignorância é uma característica do homem que pensa se utilizar da mera aparência para tirar vantagens ou se colocar em posições superiores. Esse último, achando que tal prática do mal o fará galgar mais rápido os lugares pretendidos. Sócrates quer mostrar a grande ignorância em se praticar o que não é bom. Deste modo, a psique é a única saída para o homem conhecer e contemplar suas virtudes. 




Texto citado: 

DIELS, Hermann. Die Fragmente der Vorsokratiker, griechisch und deutsch. Weidmann, 1922.

 
 
 

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