top of page

Teoria das Ideias de Platão. 

  • Lucas Bigogno
  • 11 de jul. de 2024
  • 7 min de leitura

Muito provavelmente já escutou falara sobre o mito da caverna de Platão, no qual era contraposto um mundo de imagens, ideias ou formas e o mundo sensível, onde as coisas são espelhadas. Antes é preciso elucidar a noção de ideia para o autor, pois diferentemente como temos hoje a filosofia grega compreendia de outra forma.


A transliteração de ideia na tradução do grego foi mal-empregada, pois o sentido que Platão destinou foi forma. Deveria se tratar das teorias das formas. O sentido de ideia corresponde a uma imagem ou pouca certeza do que se quer. Para os gregos a verdade está nas coisas visíveis, ou seja, davam imenso valor a visão. Teoria das formas valorizavam uma maneira de olhar o mundo pelo intelecto.


Anterior a Platão, outro filosofo, visto nesta série de publicações, utilizou do mesmo termo para se referir a sua forma, Demócrito. Ele se utilizou da ideia como maneira de identificar o átomo que é invisível aos olhos humanos, mas visível ao intelecto. Assim, pode-se categorizar que para Platão, a ideia correspondia a qualidade, imaterialidade e finalidade; já em Demócrito, seria quantidade, materialidade e necessidade. Essa mudança para o ambiente imaterial só foi possível em Platão devido sua segunda navegação.

 

Platão segue na divisão socrática entre corpo e alma, pois fundamenta que as coisas que captamos pelos olhos da alma é o inteligível, já aos olhos físicos estão as coisas visíveis. 

A teoria das ideias se funda sobre a noção da realidade que se capta somente pelo raciocínio. 

 

– Se há um meio através do qual algum dos seres se manifesta à alma, acaso não será esse o raciocínio? 

– Sim 

– Então, acaso a alma não raciocina melhor quando nenhum desses sentidos a perturbe, nem a vista, nem o ouvido, nem o prazer, nem a dor, mas quando se recolhe só em si mesma e, deixando o corpo e rompendo o contato e a comunhão com o corpo na medida do possível, com toda a sua força fixe o olhar no ser? 

– Assim é. 

– E, portanto, também nesse caso, a alma do filósofo não despreza acaso o corpo e não foge dele, buscando permanecer só consigo mesma? 

– Claro. 

– E que haveremos de dizer, Símias, acerca dessa outra questão? Diremos que o Justo é alguma coisa por si mesmo ou não? 

 

Neste ponto é possível notar como Platão distingue a filosofia ou os filósofos como pensadores de extrema intelectualidade e pouca corporeidade. A filosofia seria uma atividade intelectiva e pouco ou quase nada corpórea. Assim, para ele fazer filosofia era desprezar as sensações corporais e fundar-se sobre o intelecto que busca o conhecimento verdadeiro. 

Ao dispor sobre as ideias, o autor quer valorar que as coisas visíveis representam as verdadeiras formas vistas pelo intelecto humano. Com isso, características como unidade e propriedade das formas aparecem, ou seja, as verdadeiras formas, como a da cadeira é única e suas características são próprias. 

 

– Diremos sim, por Zeus! 

– E, da mesma maneira, também o Belo e o Bom? 

– E por que não? 

– Porventura viste alguma dessas coisas com os olhos? 

– Não, respondeu, de maneira alguma. 

 

No decorrer do diálogo, Platão faz pela primeira vez a distinção entre o plano físico e, o que se denominará depois, o plano metafísico. 

 

– E por acaso não é verdade que poderá fazer isto da maneira mais pura aquele que, na máxima medida possível, avizinha-se de cada uma das realidades unicamente com a razão sem apoiar-se, no seu raciocinar, na visão ou em qualquer outro sentido e sem tomar nenhum outro para companheiro do pensamento, mas usando a pura razão em si mesma e por si mesma, busca alcançar cada um dos seres na sua pureza em si e por si, separando-se o mais que puder dos olhos e dos ouvidos e enfim, de todo o corpo, na medida em que ele perturba a alma e não a deixa, quando está em comunhão com ela, adquirir a verdade e a sabedoria? E não é acaso esse. Símias, aquele que, mais do qualquer outro, poderá atingir a verdade? 

– O que dizes, Sócrates, é supremamente verdadeiro, respondeu Símias (65c-66a). 

 

No texto de Platão sobe o mito da caverna, no seu livro República, essa divisão metafísica é compreendida como o mundo das ideias ou das formas, local em que está a verdadeira causa dos objetos. No mundo das formas, o autor identifica como sendo o verdadeiro local do ser absoluto. Aqui vale a ressalva que Platão não contrapõe dois mundos distintos, mas um único mundo que é causa e o outro é causado. O mundo das formas é composto pelas coisas verdadeiras, sobre as quais não há enganação. O bom é literalmente bom, o belo é literalmente belo, a cadeira é literalmente cadeira.


Pode-se estranhar essa última proposição, mas o que se quer argumentar é que a forma verdadeira e o seu ser verdadeiro estão nas ideias. Não vemos a cadeira em nossa frente, mas apenas uma cópia ou imagem meio embaçada da verdadeira cadeira. Essa distinção pode ser analisada ao tentar descrever uma cadeira, para Platão de igual modo era a descrição do belo e do bom, não se consegue chegar num denominador comum. Tente descrever a cadeira e perceba que talvez a única coisa que se dirija diretamente a cadeira é sua função, feita par se sentar. De resto, ficaremos descrevendo seu material, seu formato e não chegaremos no seu ser de fato. 

 

– Se queres, estabeleçamos, portanto, acrescentou ele, duas espécies de seres: uma visível, outra invisível. 

– Estabeleçamos, respondeu. 

– E que o invisível se mantenha sempre idêntico a si mesmo, e o visível não. 

– Também isso estabeleçamos, disse ele (Fédon 78d-79a). 

- Com efeito, o raciocínio que estamos fazendo não vale apenas para o igual em si, mas também para o bom em si, para o justo em si, para o pio em si e para cada uma das outras coisas, como digo, nas quais, perguntando nas nossas perguntas e respondendo nas nossas respostas, imprimimos o “selo” do “ser em si”' (auto o esti) (75c-d). 

 

Platão estabelece uma distinção clara entre o mundo sensível e o inteligível, assim o mundo sensível é um intenso vir-a-se das coisas. No mundo das coisas que vemos há uma plena incompletude das formas, pois o não ser é presente. Nenhuma coisa é completa, visto que as formas verdadeiras ou as ideias, estão em outro plano. O autor interliga os pensamentos de Heráclito e de Parmênides sobre o ser. O heraclitismo é visto no mundo sensível, no qual ser e não-ser estão sempre se conjugando. Já o eleatismo, é fundamentalmente o mundo das ideias, o inteligível.


No mundo inteligível, as coisas são imóveis e perpetuas. Suas características permanecem para sempre e não sofrem nenhuma corrupção. Este supra-mundo pode ser caracterizado como o local das formas verdadeiras. O mundo inteligível e sensível interliga-se de maneira a clarear a visão no mundo do vir-a-ser sobre as coisas que estão sendo de maneira precária. 


Platão mostra que a filosofia de Parmênides é causa, o mundo inteligível causa sobre o mundo sensível. Analogamente o mundo sensível é causado no seu vir-a-ser do inteligível, as formas inteligíveis causam no mundo sensível, fazendo as formas do vir-a-se causas. Pode-se parecer confuso, mas Platão dispunha que a causa é anterior as coisas que são causadas, ou das coisas que são resultantes. Numa equação matemática, o problema é causa do resultado. 


Visto que o mundo é causado pela causa do supra-mundo, Platão compreende ser absurdo dizer que o mundo das ideias as coisas são imutáveis. Ao contrário, o sensível se altera continuamente, o belo se transforma em feio, mas a ideia pura de beleza permanece a mesma. Por isso a necessidade de galgar intelectualmente e adentrar no mundo das ideias, para que se evite enganações. Conhecendo o mundo suprassensível se deparará com a sua imutabilidade, o belo-em-si sendo causa verdadeira, não podendo, absolutamente, tornar-se feio.


 Outro ponto fundamental é a noção de propriedade, cada coisa em si é única e própria. As ideias são solidas e estáveis. A estabilidade é fundamental para o conhecimento da verdade. Platão eleva o conhecimento da verdade por formas absolutas e únicas. Um conhecimento real e verdadeiro só é possível com uma estabilidade no ato dê-se conhecer. Por meio do codinome de Sócrates, Platão continua seu diálogo: 

 

Sócrates – Portanto, se as coisas não são juntamente da mesma maneira e sempre para todos, nem cada coisa é para cada um segundo o modo próprio dele, é evidente que as coisas possuem nelas mesmas uma essência própria e estável, que não estão em relação conosco e não são arrastadas por nós daqui e dali com a nossa imaginação, mas são por si mesmas em relação com a sua essência, conforme a sua natureza (385e-386e). 

 

As ideias ou formas são unidades, pois somente assim é possível unificar as formas sensíveis e imutáveis numa mesma realidade, a partir do ser humano. A unificação das formas é outro ponto fundamental da filosofia platônica sobre o mundo. Como conhecer as verdades e os discursos ou formas de um único objeto que são múltiplas? Impossível. Assim, as formas devem ser únicas e verdadeiras. 

 

– Quem dizes que são, perguntou, os verdadeiros filósofos? 

– Aqueles que amam contemplar a verdade, respondeu. 

– É certo, disse; mas que queres dizer com isto? 

– Dizê-lo a outro, respondi, não seria fácil; mas creio que concordarás comigo num ponto. 

– Qual? 

– Uma vez que o belo é contrário ao feio, eles são dois. 

– Como não? 

– Ora, sendo dois, cada um deles é uno. 

– Isto também. 

– E sobre o justo e o injusto, sobre o bem e sobre o mal, e sobre todas as outras ideias deve-se dizer o mesmo, isto é, que cada uma delas é una; mas como aparecem sempre e em toda a parte em comunhão com ações, corpos e outras ideias, cada uma aparece múltipla (República V, 475e-476a). 

 

Já pode-se notar na filosofia de Platão que o filosofo tem um papel preponderante na formação da sociedade e devendo ocupar os cargos de maior importância. O filosofo seria um homem especial que consegue acessar o que realmente é belo e justo, de resto o homem comum se limitaria nas formas múltiplas do sensível: 

 

Justamente nisso consiste o que separa o homem comum, que se limita ao sensível, do filósofo; o primeiro se agarra ao múltiplo repelindo a unidade e, além disso: [...] não suportaria de maneira nenhuma que outros dissessem que uno é o belo, o justo, e assim por diante [...] (V, 479a). [...] caminham errantes na multiplicidade e não são filósofos (VI, 484b). 

Quem sabe ver o conjunto é dialético, quem não sabe não o é (VII, 537c). 

 

Por fim, o filosofo, esse homem privilegiado é tido como o único a compreender a dialética entre o mundo suprassensível e o sensível. A dialética seria a unificação dos dois mundos numa só realidade, mas como? O autor da grande importância ao filosofo, pois para ele essa visão dialética é a arte de olhar a verdade em-si, o supra-mundo, e compará-lo com o sensível, assim a conclusão seria um grande ensinamento e possibilidade de transmitir aos outros homens.  


 
 
 

Comentários


Lucas Bigogno

©2024 por Lucasbigogno. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page